De olho nos fluxos globais

Entrada de capital estrangeiro e uso de inteligência artificial são a nova cara do mercado, orientando a evolução dos serviços voltados aos investidores globais

Edição 387

“Temos visto também surgirem novos corredores de investimentos na China e no Sul Global como um todo”, diz Frederico Leonel, head da área de securities services do Citi no Brasil

A entrada de recursos estrangeiros no Brasil, a reorganização dos fluxos globais em direção a mercados emergentes e a busca por processos mais rápidos vêm dando novo impulso aos serviços de custódia para investidores internacionais. Citi e BNP Paribas apontam a combinação entre tecnologia, escala global e capacidade de adaptação local como eixo central para atender um mercado mais exigente, marcado por maior demanda por acesso instantâneo, eficiência operacional e novos produtos.
No Citi, o desempenho em 2025 e nos primeiros meses de 2026 refletiu o aumento do fluxo estrangeiro para o País, primeiro em renda fixa e depois em renda variável. A instituição também destaca o surgimento de novos corredores de investimento ligados à China e ao Sul Global, além do avanço de tecnologias voltadas à pós-negociação em tempo real e da preparação do mercado brasileiro para a redução do ciclo de liquidação de ações de D+2 para D+1.
Para o BNP Paribas, a atuação combina rede global, escala operacional e crescimento em produtos como fundos de tesouraria e ETF. A instituição, que tem entre 35% e 40% de market share em ETF, registrou 17 novos fundos dessa classe em 2025, mais dez este ano e outros dez em pipeline.

Corredores de investimento – A custódia do Citi no Brasil refletiu em 2025 e nos primeiros meses de 2026 o impacto positivo do ingresso de recursos estrangeiros no País. “Esse fluxo foi muito influenciado pelo ambiente geopolítico lá fora”, explica Frederico Leonel, head da área de securities services do Citi no Brasil.
“No ano passado o maior volume de recursos veio para a renda fixa mas em 2026, até o mês de abril, a renda variável teve destaque, com um fluxo recorde para a bolsa brasileira que foi empurrado pelos investidores estrangeiros”, diz. Segundo ele, o ambiente geopolítico no Oriente Médio fez com que o Brasil aparecesse em posição atrativa, por estar mais protegido do conflito e ser visto como destino mais seguro para investimentos diante da instabilidade externa.
Leonel observa que esse tem sido um movimento relevante, com fluxos de investidores globais redirecionados para mercados emergentes. Mas não se trata apenas disso. “Temos visto também surgirem novos corredores de investimentos na China e no Sul Global como um todo e, dada a nossa presença internacional, conseguimos auxiliar os brasileiros lá fora e atrair investidores de países que não são tão óbvios para o mercado aqui”, afirma.
Além da China, o conceito geopolítico e socioeconômico do Sul Global inclui uma série de países em desenvolvimento, como a Índia, entre outros grandes centros de liquidez. “O Brasil tem um mercado super desenvolvido, maduro e bem evoluído. Isso atrai recursos da Ásia em geral, de hubs de liquidez como os de Hong Kong e Singapura, mas os fluxos são dispersos por diversos países”, aponta o executivo.
Como a custódia do grupo está presente em 63 países, é possível dar suporte a investidores de diferentes regiões. “Preparamos em todos eles material sobre o mercado de capitais e serviços de cada país, o que ajuda nesse processo de atração de fluxos”, conta.
A agenda de inovação acompanha essa mudança de fluxos. Sob o ponto de vista tecnológico, um dos fatores cruciais que orienta as iniciativas atualmente é a busca pelo instantâneo, diz Leonel. “Há projetos novos, seguindo a tendência do real-time para garantir a pós-negociação instantânea e o acesso imediato do investidor à sua liquidez, que é um dos nossos drivers de inovação”.
Em outubro de 2025, o Citi Investor Services lançou no exterior sua nova tecnologia Single Event Processing, SEP, que unificou a infraestrutura global de custódia em real time. Com automação da captura de informações, a tecnologia permite que os clientes tomem decisões de maneira mais inteligente e melhor informada, com acesso mais rápido aos recursos e maior precisão.
“Lançamos essa inovação no mercado internacional no ano passado e este ano faremos o lançamento no Brasil, o que vai dar uma agilidade tremenda aos processos. O que levava várias horas para ser concluído agora será feito em minutos”, diz. A tecnologia SEP, que já roda na América do Norte e em alguns países europeus, será estendida em 2026 aos demais mercados da rede mundial de custódia do banco.
Ao mesmo tempo, o banco lidera no Brasil um dos grupos de trabalho montados pela B3 para reduzir o ciclo de liquidação de ações de D+2 para D+1, mudança prevista para entrar em vigor em fevereiro de 2028. O objetivo é alinhar o mercado brasileiro a outros mercados mundiais e garantir maior eficiência operacional. “Caminhamos para isso. A Europa migrará para o novo modelo em dezembro de 2027 e o Brasil deve fazer isso em 2028. Trouxemos um white paper do Citi na Europa para ser usado como norte nas discussões locais”, explica Leonel.
Para o investidor estrangeiro, há dois temas principais nessa agenda: o processo de alocação e o câmbio, principalmente para aqueles que estão em fusos horários muito diferentes. “As plataformas do banco já estão preparadas para a migração, mas ainda não sabemos como a B3 irá conduzir o processo porque há muitas discussões acontecendo nesse sentido”, afirma.

Tesouraria e ETF – Ser o segundo maior em network global, com ligação a plataformas internacionais, é um dos trunfos do BNP Paribas para acessar avanços globais em custódia de ativos para investidores estrangeiros, sua principal linha de atuação global. “A custódia é um business de escala e precisa de uma plataforma robusta. O banco está presente em mais 27 países e, no Brasil, conseguimos manter a terceira posição entre os principais custodiantes”, analisa Malu Gregório, líder de securities services do BNP Paribas no Brasil.
A casa já utiliza inteligência artificial em todas as suas linhas de negócios e processos. No Brasil, também recorre a ferramentas internas para automatizar atividades ainda muito mecânicas nos mercados emergentes. “Há vários processos que já foram automatizados com essas ferramentas e estamos criando um código com IA para a melhoria de processos”, afirma.
O banco tem trazido novos investidores estrangeiros típicos, mas também observa aumento de contas originadas pela parceria com seus times de global markets. São clientes corporativos que vêm ao Brasil para fazer operações estruturadas, por exemplo. “Nesses casos temos conseguido entregar boas soluções. Vimos um aumento dos ativos de custódia de clientes corporativos que acessam o mercado brasileiro e conseguimos empacotar bem isso com os times de global markets e de global banking”, explica Malu.
Outra frente é a dos fundos de tesouraria domiciliados no Brasil, em geral de bancos estrangeiros que chegam para montar suas estruturas locais. “É um produto combinado entre a Resolução 4.373 e o fundo local, e às vezes inclui também a parte offshore”, detalha Malu. No total, já há mais de dez bancos fazendo isso, sendo que dois deles montaram seus fundos de tesouraria em 2025.
Um dos pontos de maior crescimento tem sido a custódia e administração fiduciária de fundos de índices, classe em que a casa tem hoje de 35% a 40% de market share e captação crescente de novos clientes, informa Malu. “Temos visto crescer essa demanda de modo muito rápido, somos procurados também por gestores que estão começando com ETFs e além disso já temos muitas parcerias”, explica.
Foram 17 novos ETF em 2025 e mais dez este ano, com outros dez para serem lançados em breve. “Temos um pipeline importante, principalmente em índices de renda fixa. Do total de 198 ETFs listados na B3, temos 59 deles”, conta Malu.