Edição 386

“As grandes dificuldades da fusão são as diferenças entre as fundações, com práticas diferentes, características diferentes”, diz Armando Barros, presidente da Fachesf
A Fachesf, fundo de pensão dos funcionários da Chesf, já colhe os primeiros resultados de um processo de reorganização iniciado antes mesmo de sua eventual incorporação à EletrobrasPrev, nova entidade criada pela Axia (antiga Eletrobras) para consolidar as cinco fundações patrocinadas por empresas do grupo.
Antecipando-se à necessidade de corte das despesas operacionais, uma das lógicas por trás dessa fusão das cinco entidades (Fachesf, Elos, Eletros, Previnorte e Real Grandeza), a fundação patrocinada pela Chesf trocou sua antiga sede, uma casa de aproximadamente 4 mil metros quadrados de área útil onde funcionava havia cerca de 50 anos, por duas salas comerciais com menos de 500 metros quadrados. Também reduziu seu quadro de pessoal de 210 para 75 pessoas e está revendo contratos com fornecedores. O movimento já representa uma economia de cerca de R$ 2,5 milhões por ano, equivalente a 5% das despesas totais da entidade.
O antigo imóvel usado como sede, localizado em um terreno de 7 mil metros quadrados, também foi vendido. A operação faz parte de um programa mais amplo de eficiência operacional, que inclui o enxugamento de despesas com energia, limpeza, segurança e outros custos administrativos.
Para o diretor de investimentos da Fachesf, Felipe Andrade, o ganho não ficou restrito ao balanço administrativo. Com a queda das despesas, a fundação conseguiu zerar a taxa de administração dos participantes em quase todos os planos em que isso era possível. “Esse projeto trouxe um impacto real, efetivo para o nosso participante”, afirma.
A busca por eficiência também ajuda a explicar a cisão da área de saúde, concluída em fevereiro último, que tornou a Fachesf uma entidade dedicada exclusivamente à previdência complementar. O presidente da fundação, Armando Barros, explica que parte significativa da redução de pessoal foi possível justamente por causa dessa cisão, que transferiu a área de saúde para a Luminar – empresa resultante da fusão das operações de saúde da Fachesf e da Eletronorte. “A gente começou esse processo de busca de eficiência pela cisão do plano de saúde, as outras mudanças foram acontecendo na sequência”, afirma.

“Esse projeto (de redução de custos) trouxe um impacto real, efetivo para o nosso participante”, diz Felipe Andrade, diretor de investimentos da Fachesf
Ensaio geral – Essa reorganização interna está funcionando como ensaio geral para uma etapa potencialmente mais complexa: a incorporação da Fachesf à EletrobrasPrev, dentro do processo de consolidação das cinco entidades patrocinadas por empresas da Axia. O tema ainda não foi deliberado pelo conselho da Fachesf, mas já avançou em outras fundações do grupo Axia, principalmente Elos, Eletros e letronorte. Segundo Barros, a expectativa é que o assunto seja levado ao conselho da Fachesf no segundo semestre deste ano.
O ganho de escala é o argumento mais evidente para a consolidação. Uma entidade maior tende a concentrar estruturas de governança, tecnologia, custódia, consultorias, atendimento e administração mais eficientes. Mas é justamente nesses pontos que estão as maiores dificuldades, uma vez que as fundações têm histórias, práticas, sistemas e públicos distintos. “As grandes dificuldades são as diferenças entre as fundações, com práticas diferentes, características diferentes”, diz Barros.
Ele também cita como desafio o peso do regionalismo e da relação de proximidade entre participantes e equipes de atendimento, especialmente em entidades com grande número de aposentados.
Um dos pontos mais sensíveis da integração está nos diferentes sistemas de informação usados pelas fundações. A Fachesf utiliza o da Intec e também sistemas próprios em algumas atividades, enquanto outras entidades trabalham com estruturas diferentes. A escolha de uma plataforma comum exigirá um processo complexo de migração de dados, adaptação das regras de concessão de benefícios e padronização de procedimentos. “O ponto essencial, ao meu ver, vai ser essa questão de sistema”, afirma Andrade.
Segundo ele, outro ponto sensível será a área de custódia, uma vez que as cinco entidades utilizam os serviços de três custodiantes distintos. “Precisaria ser escolhido um único”, diz Andrade.
A cautela da Fachesf nesse processo também decorre do perfil de seus planos, formados por uma massa previdenciária madura, com grande volume de pagamento de benefícios e pouca margem para improvisos. Entre 85% e 90% do patrimônio da entidade está em planos já em fase de pagamento, segundo Andrade. Em 2025, a fundação pagou mais de R$ 1 bilhão em benefícios, para um patrimônio de investimentos em torno de R$ 9 bilhões. Esse perfil explica a prioridade dada à imunização das carteiras, processo iniciado no fim de 2023 e reforçado na política de investimentos de 2024.
Reduzir descasamentos – A imunização, na Fachesf, não aparece como simples adesão à tendência dominante entre os fundos de pensão em um ciclo de juros reais elevados. Ela nasce da necessidade de reduzir o descasamento entre ativos e passivos em planos maduros. “Os nossos planos são muito maduros”, diz Andrade.
A fundação já havia feito, em 2023, uma alteração de indexador considerada importante para reduzir riscos, passando de IGP-M para IPCA. O passo seguinte foi reforçar a compra de ativos mais aderentes ao fluxo de pagamentos de pensões. Ainda assim, há limites. O Plano BD, por exemplo, depende do fluxo da patrocinadora, o que restringe a velocidade de sua imunização completa.
Isso não significa ausência de risco nas carteiras. Nos planos CD e CV há espaço para renda variável, exterior, multimercados e private equity. Com isso, a volatilidade fica concentrada nos planos com participantes em fase de acumulação, enquanto os planos maduros, imunizados, ganham mais previsibilidade. Essa separação evita que uma tese única de investimento seja aplicada de forma indistinta a públicos com necessidades diferentes.
Na renda variável, a fundação tem algo entre R$ 130 milhões e R$ 150 milhões, concentrados principalmente nos planos CDs. A gestão direta da carteira de ações foi substituída por um modelo terceirizado, com fundos consolidadores estruturados como fundos de fundos. A Fachesf seleciona os gestores, mas não faz a compra e venda direta de papéis. “A gente não faz gestão de compra e venda de papel; isso é terceirizado”, diz Andrade. Segundo ele, isso permite à equipe interna concentrar esforços na macroalocação e no controle dos mandatos.
A mesma lógica vale para outras classes. Em private equity, o estoque de cerca de R$ 204 milhões foi organizado em fundos consolidadores geridos por terceiros. Em crédito privado, a fundação reduziu posição após o fechamento dos spreads, por avaliar que a relação risco-retorno já não era tão favorável quanto no passado. No exterior, a exposição também foi reduzida após a forte valorização dos mercados internacionais.
Resultados de março – Assim como ocorreu com a maioria das fundações, o desempenho das carteiras da Fachesf em março foi fraco. Andrade atribui parte do resultado aos multimercados, que prejudicaram os planos com maior exposição a risco. “Nos multimercados a gente sofreu bem”, afirma. Nos planos BD, houve ainda um efeito da precificação das NTN-Bs, que carregam para o resultado de abril boa parte da inflação de março, que foi maior.
Segundo Andrade, as maiores oscilações ocorreram nos planos em que há maior risco. “Nos planos BD, BS e CD concedido, que são justamente os planos maduros, a gente tem uma estabilidade muito grande na cota”, afirma. A frase resume a lógica da política de investimentos: buscar risco onde ele faz sentido e previsibilidade onde o fluxo de benefícios fala mais alto.
A agenda ESG aparece dentro dessa mesma lógica pragmática. A fundação diz considerar critérios ambientais, sociais e de governança em sua avaliação de riscos, mas o foco principal está na governança. Embora tenha investimentos em fundos florestais, private equity de impacto e projetos no Nordeste, a prioridade da Fachesf está em avaliar a qualidade de gestão das empresas e dos veículos investidos. “O ESG muitas vezes é muito ligado ao ambiental, mas uma coisa que de fato impacta muito o resultado das empresas é a governança”, afirma.