Solutions avança entre EFPC

Crescem os mandatos das assets para investment solutions, puxados pelo exterior, mas consultorias alertam para risco de carteiras desalinhadas ao passivo

Edição 386

Mosca,Aquiles(BNP) 24ago 08a

Para Aquiles Mosca, CEO da BNP Paribas Asset Management Brasil, “pelo menos uns 10% do nosso patrimônio ao longo dos próximos cinco anos deveria caminhar para solutions”

A demanda dos fundos de pensão por carteiras mais customizadas, especialmente quando o foco são alocações internacionais, vem abrindo espaço para o crescimento das áreas de “investment solutions” dentro das assets. O modelo integra perícias em gestão de recursos, seleção de fundos, construção de portfólios e acompanhamento técnico das carteiras, e geralmente é estruturado por meio de fundos exclusivos ou fundos de fundos. A solução ainda é uma fatia pequena do patrimônio das entidades fechadas de previdência (EFPC), mas já começa a alterar a forma como algumas selecionam os gestores e organizam seus mandatos.
Na BNP Paribas Asset Management Brasil, a área de “investment solutions”, ou simplesmente solutions, responde hoje por pouco mais de R$ 1 bilhão dos R$ 85 bilhões sob gestão que a asset tem no país. A proporção ainda é baixa, mas o fluxo de novos processos indica avanço. Segundo Aquiles Mosca, CEO da gestora no Brasil, mais da metade dos processos de seleção dos quais a casa participa atualmente envolve algum tipo de solutions, seja em macroalocação local ou em mandatos internacionais.
A expectativa da gestora é que essa participação se aproxime, nos próximos anos, do peso que a área já tem no negócio institucional global do grupo. Globalmente, a Multi Asset Solutions, unidade global de soluções multiativos da BNP Paribas Asset Management, tem cerca de € 70 bilhões (R$ 410 bilhões) sob gestão, dentro de uma base institucional global de aproximadamente € 850 bilhões (R$ 4,97 trilhões). “Eu acho que nosso patrimônio deveria caminhar para isso. Pelo menos uns 10% do nosso patrimônio ao longo dos próximos cinco anos deveria caminhar para solutions”, diz Mosca.
A PPS Portfólio e Performance, consultoria que acompanha fundos de pensão, confirma o pequeno peso que a área de solutions desempenha atualmente no portfólio das EFPC. Segundo o CEO e sócio da consultoria, Everaldo Guedes de Azevedo França, a utilização de solutions por parte dos institucionais brasileiros ainda é “bem abaixo de 10%”. Mas, segundo ele, “há uma tendência de crescimento”.
As solutions aparecem, em geral, como resposta a duas dificuldades dos investidores institucionais. A primeira é operacional: mapear oportunidades, selecionar gestores, fazer due diligence, negociar taxas, acompanhar performance e produzir relatórios. A segunda é de construção de carteira: diante de um universo mais amplo de ativos, classes e geografias, o fundo de pensão precisa transformar objetivos atuariais e restrições de risco em mandatos executáveis. “Mapeamento de oportunidades de mercado é algo que o investment solutions faz muito bem”, diz Rafael Sampaio, sócio da PPS.
Segundo ele, um dos pontos a observar nessa alternativa é evitar casas com conflito de interesses, quando quem estrutura a solução quer incluir somente fundos próprios ou de parceiros com as quais mantém relação comercial. Algumas soluções são abertas e buscam produtos de diversas gestoras, enquanto outras são restritas a fundos da própria casa ou de empresas do mesmo grupo, mas isso tem que estar acordado. “Ambas são legítimas, mas isso tem que estar claro para o investidor”, afirma Sampaio.

Depende do mandato – Na BNP Paribas AM, Mosca diz que a estrutura depende do mandato. Há clientes que restringem a alocação em fundos da própria casa e outros que autorizam o uso quando a gestora entende ter vantagem competitiva. O compromisso, segundo ele, é com o objetivo de retorno e o benchmark contratado. “Tem clientes que falam: a gente não quer alocação em fundos da casa. Tem clientes que falam: o que você tiver de melhor na casa, pode colocar”, afirma.
Segundo ele, na prática a casa tende a usar produtos internos em áreas nas quais tem maior diferencial, como fundos de caixa e crédito, complementando a carteira com gestores externos para ampliar a diversificação.
O maior motor de crescimento da área, no caso da BNP, tem sido o investimento no exterior. A demanda vem dos fundos de pensão que buscam exposição a setores pouco representados no mercado brasileiro, como inteligência artificial, veículos elétricos, biotecnologia e farmacêutica. Para esses mandatos, a equipe local trabalha com a unidade global da gestora, baseada em Paris e Londres. “Quando entra o mandato para dar dólar mais um percentual ao ano com diversificação global, a gente faz um trabalho a quatro mãos com a área de soluções lá fora”, diz Mosca.
A estrutura global permite acessar renda fixa internacional, ações, hedge funds, commodities e outros ativos. Algumas decisões, como ter ou não ter proteção cambial, cabem ao comitê de investimentos da fundação. Há entidades que querem eliminar a variação cambial para explicar ao participante apenas a oscilação do ativo investido, enquanto outras entendem que a moeda estrangeira faz parte da diversificação.
É nesse ponto que a consultoria ganha papel decisivo. A BNP defende um modelo “a três mãos”. Nesse modelo, a consultoria ajuda a fundação a tomar as decisões críticas com base no benchmark, orçamento de risco e restrições dos passivos. “A gente nunca vai substituir o trabalho técnico do consultor nem o da fundação, que conhecem melhor que nós o passivo”, afirma Mosca. “Podemos opinar, mas não somos consultoria”.
A PPS concorda com a separação, enfatizando que além da escolha de fundos próprios ou de terceiros é preciso harmonizar os processos de construção das carteiras. Para Everaldo França, nem sempre uma carteira doméstica ótima e outra internacional ótima resultam na melhor soma. “Tem que ter o cuidado para que, ao juntar as duas, o resultado não seja uma solução subótima, porque elas foram desenvolvidas sem conversar uma com a outra”, afirma.
Na sua visão, a atuação da consultoria atenua esse risco. Segundo ele, carteiras de fundos de pensão exigem uma abordagem de ALM, com horizonte multiperiódico e olhar integrado sobre ativos, passivos e política de investimentos. “A consultoria deve atuar antes e durante o processo, traduzindo o passivo da fundação em parâmetros que possam ser usados pela gestora”, diz.

Franca,Everaldo(PPS) 24mar

Para Everaldo França, CEO e sócio da PPS Portfólio e Performance, “temos que tomar cuidado para que, ao juntar as duas, eu não tenha uma solução subótima, porque elas foram desenvolvidas sem conversar uma com a outra”

ETFs em solutions – A sofisticação dos modelos de solutions não significa, necessariamente, uso exclusivo de gestão ativa. Segundo a PPS, até mesmo produtos passivos, como ETFs, começam a fazer parte de carteiras desenhadas de forma ativa. “ETFs, por exemplo, já têm sido utilizados na construção de soluções ativas”, diz Rafael Sampaio.
Segundo a PPS, aliada à atratividade da renda fixa ainda, o fraco desempenho dos multimercados e dos fundos de ações também têm reduzido o apetite das EFPCs por estruturas mais complexas. Everaldo conta, sem citar o nome, o caso de uma fundação que trocou recentemente um fundo de fundos de ações por um ETF de ações brasileiras.
Mas a longo prazo, entretanto, a tendência é das carteiras institucionais ganharem maior complexidade. Para a BNP, o avanço dos fundos exclusivos e dos mandatos de macroalocação cria espaço para soluções individualizadas, desenhadas para diferentes perfis dentro de uma mesma fundação. Um plano pode ter perfil conservador com títulos públicos, outro moderado com crédito e multimercados, e um terceiro mais agressivo com ações e exterior.
No caso das EFPCs, a expansão das investment solutions parece depender de um equilíbrio delicado. De um lado, essa alternativa oferece escala, acesso a produtos globais, capacidade de seleção e soluções mais próximas das necessidades de cada entidade. De outro, exigem governança reforçada, transparência na escolha dos fundos, segregação interna nas assets e participação ativa da consultoria.

RPPS fora de soluções customizadas

Embora o debate sobre investment solutions avance entre Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC), os Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) ainda aparecem de forma marginal nesse mercado. Segundo Aquiles Mosca, CEO da BNP Paribas AM, a principal barreira é regulatória, uma vez que esses regimes não podem ter fundos exclusivos e normalmente essa é uma condição essencial para montar estruturas customizadas.
“Como eles não podem ter fundo exclusivo, não vejo a estrutura de solutions avançando entre os RPPS, ao menos até que a regulação evolua para que eles possam passar acessar fundos exclusivos”, afirma Mosca.
Para a BNP, o fundo exclusivo é peça central no desenho das soluções, porque permite adaptar a carteira ao perfil de cada investidor, ao benchmark, ao orçamento de risco e às restrições do mandato. Sem esse instrumento, a customização fica limitada.
A PPS Portfólio e Performance também vê um uso muito baixo entre RPPS. Rafael Sampaio lembra que esses regimes sempre tiveram restrições maiores em relação ao tipo de asset e de produto que podiam acessar. Mesmo com alguma abertura recente, o avanço continua limitado pelas exigências regulatórias e de governança.
Na prática, enquanto as EFPCs começam a testar soluções mais individualizadas, os RPPS permanecem mais dependentes de fundos condominiais e estruturas padronizadas.