Edição 385

Eduardo Marchiori, presidente da Mercer Brasil
A COP30, realizada durante o ano passado em Belém do Pará, deu visibilidade e ampliou o senso de urgência a um dos temas mais relevantes e desafiadores dos nossos tempos: trata-se de como acelerar o ritmo do financiamento necessário para a adaptação climática, sobretudo nos países mais pobres e em desenvolvimento.
Neste contexto, o principal documento elaborado na conferência, intitulado “Mutirão Global: Unindo a Humanidade em uma Mobilização Global contra a Mudança do Clima”, trouxe como nova meta triplicar o volume de recursos com esse objetivo, para US$ 120 bilhões ao ano, até o ano de 2035.
Como consultores de investimentos que assessoram US$ 16, 5 trilhões em recursos privados e públicos globalmente, acreditamos que um dos maiores obstáculos que, até pouco tempo, dificultavam levantar recursos para financiamentos verdes, tinha relação direta com a sensação de alto risco.
Isso acontecia porque a falta de dados e transparência sobre os ativos não trazia o conforto necessário para que os agentes financeiros envolvidos nos negócios, por sua responsabilidade e dever fiduciário diante dos clientes, ficassem à vontade para indicar investimentos.
Esse cenário mudou muito nos últimos anos, e a decisão de alocar recursos se tornou um processo muito mais assertivo e seguro, com projetos qualificados e retornos financeiros aos investidores.
No Brasil, em especial, algumas iniciativas importantes têm sido tomadas nessa direção. Uma das principais diz respeito ao Eco Invest, maior programa de finanças verdes do país voltado à transição ecológica, que fechou o ano passado com mais de R$ 14 bilhões em financiamentos para projetos sustentáveis e prevê a realização de novos leilões ao longo deste ano.
O programa, liderado pelo Tesouro Nacional, combina recursos públicos e privados. Ou seja, adota o modelo de financiamento misto, conhecido como blended finance.
Outra frente de destaque no país é o mercado de crédito de carbono. Aprovado no final de 2024 no Brasil, é uma das principais apostas dos bancos no processo de transição climática, com diversas instituições financeiras já se posicionando, durante a COP30, como lideranças do segmento.
Do ponto de vista das finanças corporativas, um passo muito relevante foi dado ainda em 2022, quando os papéis de Renda Fixa relacionados a emissões com critérios ESG (ambientais, sociais e de governança), começaram a ganhar espaço no Brasil, a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) criou um guia, no sentido de estabelecer critérios sobre ofertas verdes de títulos negociados no mercado.
Entretanto, o maior de todos os passos – aquele com potencial para destravar, de fato, os investimentos da transição verde no Brasil -, foi dado apenas mais recentemente, quando houve a publicação, em novembro do ano passado, do decreto que institui a Taxonomia Sustentável Brasileira.
O documento, que define critérios sobre que atividades econômicas podem ser consideradas sustentáveis, serve de norte para que investidores mobilizem capital para projetos com impactos ambientais e sociais, que geram diversos benefícios aos pais, como a geração de empregos qualificados e verdes nas cadeias de geração e distribuição de energias renováveis, agricultura sustentável e gestão de resíduos, ente outros segmentos de atividade.
Além disso, outros setores da economia se mobilizam para dar suporte a essa agenda, com destaque, por exemplo, para o de seguros, que contribui, de forma decisiva, provendo, com uso intensivo de dados qualificados, reforçados por Inteligência Artificial, análise dos riscos envolvidos nos negócios e, na ponta, apólices que viabilizam a proteção de ativos.
A combinação de boas oportunidades de investimentos e a melhoria do ambiente regulatório deve atrair, nos próximos anos, parte da poupança de longo prazo do País.
A Abrapp, entidade que representa as Entidades Fechadas de Previdência Complementar do País, projeta que esses fundos tenham fechado o ano passado com patrimônio de aproximadamente R$1,4 trilhão.
Não há dúvidas de que o conjunto de avanços mencionados no texto posiciona o Brasil de forma estratégica nessa agenda, como player relevante e com ambiente adequado e alinhado às melhores práticas globais. Assim, a expectativa é que esse movimento abra caminhos para que o País consiga, ao longo dos próximos anos, avançar nessa fundamental agenda de negócios