Fluxo global redesenha alocação

Edição 385

“É uma conjuntura difícil, porque tudo pode mudar a depender de quando vai terminar a guerra”, diz Ana Luísa Rodela, CIO da Bradesco Asset Management

A combinação entre tensões geopolíticas, reconfiguração dos fluxos globais de capital e incertezas sobre o ciclo de juros vem redesenhando o mapa de alocação dos investidores institucionais. A guerra no Oriente Médio recolocou petróleo, inflação e política monetária no centro das decisões, elevou a volatilidade e tornou mais incerto o ambiente para os ativos de risco. Nesse contexto, a renda fixa volta a assumir protagonismo, mas a fotografia do mercado não se resume ao conservadorismo de curto prazo: ao mesmo tempo em que o choque externo reforça a busca por proteção, ele também acelera a discussão sobre diversificação e ajuda a reposicionar o Brasil no radar global.
O petróleo ocupa lugar central nessa virada. A alta dos preços pressiona custos em toda a cadeia produtiva, de energia a fertilizantes, com reflexos sobre inflação e atividade econômica. É por essa via que o conflito altera o humor dos mercados e a precificação do ciclo de juros. Nesse cruzamento entre guerra, inflação, juros e fluxo internacional se organiza a leitura dos gestores ouvidos: a renda fixa como vencedora imediata, a diversificação como movimento em preparação, o Brasil como destino relativamente favorecido em um mundo mais desconfiado dos Estados Unidos e, num plano mais estrutural, a manutenção de apostas em crédito, energia, ESG e private equity.
Para a CIO da Bradesco Asset Management, Ana Luísa Rodela, o principal foco de atenção continua sendo o cenário externo, já que a evolução do conflito pode mudar de forma relevante as expectativas para inflação, juros e fluxo para os ativos brasileiros.
Na BB Asset, o CIO Bruno Martins resume o efeito mais visível da conjuntura ao afirmar que a renda fixa é a grande vencedora do momento, embora sustente que o investidor institucional já começa a preparar uma nova rodada de diversificação.
Na ARX Investimentos, o CEO Rogério Poppe vê uma inflexão estrutural no fluxo internacional. Na avaliação dele, a redução da dependência dos Estados Unidos por parte de investidores globais abriu espaço para uma redescoberta do Brasil, num movimento que ganhou força ao longo dos últimos 12 meses.
Na Spectra Investments, o sócio fundador Renato Abissamra relata que a mudança de humor global afeta diretamente o esforço de captação em private equity, mas sustenta que o Brasil reúne atributos para ser visto como um mercado relativamente protegido em meio ao choque externo.

Guerra e conjuntura – Na Bradesco Asset Management, a leitura é de que a guerra no Oriente Médio não pode ser tratada apenas como pano de fundo geopolítico. Para Ana Luísa Rodela, o conflito tem potencial para alterar materialmente o comportamento dos preços. “É difícil porque tudo pode mudar a depender de quando vai terminar a guerra. O que fazemos aqui é acompanhar muito de perto o andamento do conflito porque pode haver 100 bps (pontos base) a mais no IPCA a depender do fim da guerra em maio ou em junho, por exemplo”, afirma.
O choque sobre petróleo e fertilizantes tende a se espalhar pela economia e obrigar o mercado a rever expectativas para inflação, atividade e política monetária. Isso já apareceu na curva de juros. “No início do ano, o mercado falava em 300 bps (pontos base) de queda do juro, mas em março isso quase sumiu da curva. Chegou ao ponto de ficar irracional e não haver mais nenhuma projeção de queda”, diz Rodela. Diante dessa reprecificação, a gestora adotou posição tática contrária ao consenso. “Fomos para o outro lado, então tivemos a oportunidade de ganhar nas posições em juros”, afirma. Em março, a casa carregou menos risco na renda fixa, com posição mais direcional em NTN-Bs, e ficou mais cautelosa em renda variável, com maior peso em petróleo e em setores resilientes.
Isso não muda, porém, a visão estrutural sobre o Brasil. Rodela sustenta que o país reúne diferenciais para atrair recursos estrangeiros, por produzir petróleo, ter base energética menos dependente desse insumo e contar com companhias com ativos físicos relevantes. “Esse é um viés positivo quando se fala com o investidor estrangeiro que vem para a bolsa. O País produz petróleo; tem uma base de geração de energia pouco dependente do petróleo; tem empresas com bastante ativos físicos e que não devem ser tão afetadas no médio prazo na bolsa”, afirma.
Passado o conflito, a expectativa é de reversão mais clara de fluxos para a bolsa, inclusive por parte do investidor doméstico. “Tudo depende da normalização do fluxo internacional de petróleo porque então voltaremos para um cenário de queda da Selic e isso pode levar também o investidor doméstico para a bolsa brasileira”, diz. A executiva destaca ainda que os institucionais locais surpreenderam ao não voltar para a bolsa quando o fluxo estrangeiro começou, possivelmente à espera da queda da Selic.

Renda fixa lidera – Na BB Asset, a guerra levou o mercado a rever projeções para os juros, inclusive a perspectiva de taxa em 12,5% ao fim do ano. Para Bruno Martins, o ponto central é o impacto do conflito sobre petróleo, fertilizantes, inflação e atividade. “É importante analisar quanto tempo de guerra haverá pela frente e como isso vai impactar preços do petróleo, de fertilizantes e outros produtos”, afirma.
Na visão do executivo, o institucional é um investidor de longo prazo, mas no ambiente atual a busca por proteção continua predominando. “O institucional é, em tese, um investidor diferenciado, mas muitos deles seguem concentrados na renda fixa.” Isso se reflete nos números da casa: o patrimônio sob gestão cresceu de R$ 1,7 trilhão para R$ 1,83 trilhão do início do ano para cá, puxado principalmente pela renda fixa.
Martins vê, porém, esse quadro como transitório. “Esse investidor está mais ávido e está tudo preparado para a sua alocação porque há uma grande oportunidade para diversificar carteiras. Temos visto forte demanda por multimercados e por investimentos no exterior”, diz. Até o início de abril, esse movimento ainda não havia alterado de forma relevante o fluxo de alocação e resgate em investimentos lá fora, mas isso pode mudar com eventual arrefecimento da atividade global.
No crédito privado, a leitura é de crescimento estrutural, impulsionado pela desintermediação financeira, com espaço ainda largo para expansão entre institucionais. “Na BB Asset temos crescido em crédito e estamos preparados para a demanda dos institucionais por essa classe”, afirma. A diversificação passa também por 13 teses setoriais, de petróleo a tecnologia, o que amplia as possibilidades de investimento para os institucionais a depender da leitura que eles fazem do cenário.”

Segundo Rogério Poppe, CEO da ARX Investimentos, “há muito tempo não víamos um interesse tão grande do estrangeiro pelo País.”

Brasil no contexto global – Na ARX Investimentos, a tese é de que a atração de capital para o Brasil deixou de ser apenas um movimento tático e passou a refletir uma reavaliação mais estrutural do portfólio global. Rogério Poppe situa essa virada a partir das medidas tarifárias mais heterodoxas do governo Donald Trump, anunciadas em abril de 2025. “De abril e até outubro, todos queriam entender melhor essas medidas, mas entre os meses de novembro e dezembro eles entenderam a nova dinâmica do Trump e começaram a colocar isso em suas estratégias, o que transparece agora em 2026”, afirma.
Segundo ele, o dólar mais fraco, a concentração excessiva de ativos nos Estados Unidos, as novas tarifas e a maior percepção de risco inflacionário empurraram investidores para mercados alternativos. “Há muito tempo, desde que o Brasil conquistou o investment grade em 2008, não víamos um interesse tão grande do estrangeiro pelo País. Em 12 meses, desde o anúncio das novas tarifas impostas pelos EUA, muita coisa mudou e fez com que os investidores globais, incluindo europeus e asiáticos, passassem a questionar sua dependência dos EUA”, diz Poppe.
O executivo afirma que o fluxo para o país se intensificou e resistiu inclusive ao início da guerra. “O fluxo passou a ser muito forte para cá, e continuou assim mesmo com o início da guerra no Oriente Médio. Embora a entrada de recursos tenha se reduzido um pouco em março, ela tende a se normalizar.” O Brasil, acrescenta, aparece como país líquido, exportador de commodities e grande demais para ser ignorado numa mesa global de investimentos, com vantagem adicional por ser exportador de petróleo.
Os números da casa traduzem esse movimento. Um fundo mútuo aberto da ARX, sediado na Irlanda, mais do que dobrou de tamanho de 2025 para cá e chegou a US$ 60 milhões. “O fluxo era quase inexistente mas desde o ano passado passou a ser diário”, conta Poppe. Ele ressalta que o apetite não se restringe aos hedge funds, mas inclui investidores de longo prazo, como fundos de pensão e fundos soberanos.

“Estamos bem blindados contra esse conflito”, afirma Renato Abissamra, sócio fundador da Spectra Investments

O peso dos RPPS – Na Spectra Investments, os efeitos da conjuntura global aparecem de forma concreta no fundraising. Dos R$ 800 milhões que a gestora levantou em março para seu sétimo FIP, cerca de R$ 150 milhões vieram justamente de investidores locais. O esforço de captação internacional, com investidores da Ásia e do Oriente Médio, passou a enfrentar mais ruído desde o início da guerra. “Esse é um efeito normal num contexto global, mas no Brasil deveríamos ser vistos como uma espécie de oásis pelos investidores”, afirma Renato Abissamra.
No plano doméstico, a Spectra destaca o amadurecimento dos programas de private equity nas fundações. Segundo o gestor, muitos fundos de pensão começaram, há dez ou quinze anos, a estruturar programas mais permanentes para a classe e os mantiveram ao longo das diferentes safras. “Há dez ou quinze anos houve essa reflexão sobre criar programas mais estruturais de private equity, então vemos hoje muitas fundações que já estavam nesse mercado e estão agora nutrindo seus programas de maneira disciplinada”, afirma.
Outro ponto central é a ascensão dos RPPS, hoje mais importantes do que os fundos de pensão em volume de alocação na classe. “Os gestores captam mais dos RPPS do que das fundações, essa foi uma surpresa nos últimos três anos e que estava praticamente fora do radar”, diz. Essa expansão, porém, sofreu freio com a mudança regulatória do fim de 2025. “Hoje há uma expectativa de revisão dessa regulação que permita a eles voltarem ao jogo. Se continuar a valer a limitação, muitos deles não poderão mais investir em private equity.”

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