Pragmatismo nas pautas ESG

Edição 384

Luciana Puccetti, gerente executiva de renda variável e análise de investimentos da Vivest e Gabriela Curti, analista senior de investimentos da Vivest.

O ciclo atual dos investimentos sustentáveis marca a transição de uma fase de entusiasmo conceitual para um período de pragmatismo, no qual a sustentabilidade deixa de ser apenas uma narrativa reputacional e passa a ser mensurada por eficiência operacional, mitigação de riscos e geração de valor tangível. O investimento se mostra verdadeiramente sustentável quando consegue conciliar propósito e retorno, oferecendo solidez em um ambiente global cada vez mais desafiador.

O ciclo atual dos investimentos sustentáveis marca a transição de uma fase de entusiasmo conceitual para um período de pragmatismo, no qual a sustentabilidade deixa de ser apenas uma narrativa reputacional e passa a ser mensurada por eficiência operacional, mitigação de riscos e geração de valor tangível. O investimento se mostra verdadeiramente sustentável quando consegue conciliar propósito e retorno, oferecendo solidez em um ambiente global cada vez mais desafiador.

No Brasil, o mercado de fundos classificados como “Investimento Sustentável” ou com integração ESG (ESG – Ambiental, Social e Governança) atingiu, em 2025, um patrimônio líquido de R$ 52,3 bilhões, com captação líquida superior a R$ 11 bilhões no ano. Embora a renda fixa continue dominante, multimercados e fundos de ações também registraram entradas relevantes, em contraste com o desempenho observado no mercado “não rotulado”. Esse movimento foi impulsionado, em parte, por eventos de grande porte sediados no país em 2025, bem como pelos avanços regulatórios que vêm oferecendo direcionamento e segurança jurídica para empresas e investidores.

Percebe-se que o tema ainda tem tração entre investidores brasileiros, mesmo após perder espaço no debate global recente. O foco internacional deslocou-se do combate ao greenwashing para o fenômeno do greenhushing, em que empresas e investidores seguem integrando fatores ESG, mas evitam vocalizar publicamente esse posicionamento. Ainda assim, projeções indicam que o mercado global ESG deve superar US$ 45 trilhões até 2026, acima dos atuais cerca de US$ 39 trilhões, e o Brasil reúne condições para desempenhar papel relevante nesse crescimento.

No caso das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC), o ambiente composto por juros elevados, incertezas geopolíticas e maior volatilidade traz desafios à alocação direta em temas estruturais, como mudanças climáticas. Entretanto, o uso de critérios ambientais, sociais e de governança na análise de investimentos já é uma realidade consolidada no setor. Integrar esses fatores ao processo decisório é coerente com o dever fiduciário das Entidades e contribui para antecipar tendências de retorno, mapear riscos e reforçar a resiliência dos portfólios.

Além disso, a incorporação dos fatores ESG ultrapassa as atividades diretamente ligadas ao portfólio, alcançando as próprias estruturas internas de governança das EFPCs. A Resolução nº 26, editada pela Previc – a Superintendência Nacional de Previdência Complementar, autarquia federal responsável pela supervisão e fiscalização das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) – reforça essa direção ao recomendar que Entidades dos segmentos S1 e S2 adotem programas de integridade, diversidade, equidade e inclusão. Outro avanço relevante é a exigência de maior clareza na avaliação de materialidade dos fatores socioambientais e de governança. A Portaria que regulamentará a Resolução nº 26 – cuja publicação pela Previc é esperada para este semestre – dará suporte à implementação dessas diretrizes, ao mesmo tempo em que as discussões sobre metodologias de mensuração e monitoramento já estão em andamento. O avanço regulatório, portanto, estimula o aprimoramento técnico, enriquece o debate e permite análises mais profundas dos impactos – positivos e negativos – dos fatores ESG nos investimentos.

Entre os desafios persistentes está a dificuldade de quantificar e monitorar os efeitos financeiros do engajamento, prática por meio da qual investidores institucionais utilizam sua influência para incentivar a evolução das companhias. Soma-se a isso a ausência de padronização das informações ESG divulgadas pelas empresas, o que reduz a comparabilidade, compromete a eficácia das decisões de alocação e pode diluir a capacidade dessas iniciativas de gerar desempenho financeiro superior. A mensuração consistente da exposição a riscos ambientais e sociais também se mostra complexa, introduzindo ruído na percepção de mercado, reduzindo a clareza sobre como as ações corporativas estão sendo avaliadas pelos investidores.

Nesse cenário, iniciativas regulatórias voltadas à transparência e à padronização de dados tornam-se fundamentais para elevar a qualidade das análises e fortalecer a tomada de decisão. Embora o debate sobre sustentabilidade não seja novo – com registros de fundos socioambientais desde a década de 1970 – a consolidação do conhecimento técnico permanece um desafio. O crescimento do volume de recursos voltados a estratégias ESG, aliado ao avanço regulatório, tem estimulado a difusão desse conhecimento, ampliando a qualidade das discussões e a robustez analítica do setor.

Diante disso, torna-se essencial investir em capacitação e em novas tecnologias, assegurando que o compromisso com a agenda ESG esteja incorporado à cultura organizacional das Entidades. A adoção consistente desses princípios sustenta sua implementação ao longo do tempo e contribui para a construção de portfólios mais resilientes, transparentes e alinhados a um futuro econômico e ambientalmente sustentável.

Luciana Puccetti, gerente executiva de renda variável e análise de investimentos da Vivest e Gabriela Curti, analista senior de investimentos da Vivest.