Elos e Previnorte dividem fundos

Edição 384

“Quando surgiu o comunicado da saída da Schroders, entendemos que era interessante ir a mercado, ouvir outros gestores e eventualmente buscar condições melhores”,diz Leonardo Sansivieri, da Elos

As fundações Elos e Previnorte estão colocando em prática uma estratégia inédita para a gestão de investimentos internacionais no sistema de previdência complementar fechado. O modelo permitirá que uma fundação se torne cotista de um fundo restrito estruturado por outra entidade, criando uma arquitetura de gestão compartilhada que amplia escala, diversificação e eficiência nas carteiras no exterior.

O movimento começou após a Schroders anunciar, em setembro de 2025, que encerraria suas operações no Brasil. Diante da decisão da gestora britânica, as duas fundações optaram por revisar suas estratégias internacionais e abrir processos seletivos para escolha de novos gestores. A Elos, que mantinha cerca de R$ 80 milhões aplicados em um fundo exclusivo gerido pela Schroders, e a Previnorte, com aproximadamente R$ 200 milhões distribuídos em vários fundos internacionais, conduziram uma seleção conjunta que resultou na escolha de duas gestoras: a UBS, que assumiu a carteira da Elos, e o BTG Pactual, responsável pela estrutura que está sendo montada pela Previnorte.

O arranjo final prevê uma divisão cruzada das alocações. Inicialmente, os recursos da Elos serão transferidos para o fundo gerido pela UBS, que substituiu a Schroders. Em paralelo, a Previnorte estrutura um novo fundo sob gestão do BTG. Quando ambos estiverem plenamente operacionais, metade da carteira internacional de cada fundação será investida no fundo da outra. Assim, a Elos terá cerca de R$ 40 milhões com a UBS e R$ 40 milhões no fundo do BTG, enquanto a Previnorte dividirá seus R$ 200 milhões em aproximadamente R$ 100 milhões em cada gestor.

“Assim que o fundo da Previnorte estiver pronto, nós também vamos comprar cotas dele”, explica Leonardo Sansivieri, gerente de investimentos da Elos. “Com isso, passamos a ter dois gestores executando o mesmo mandato, o que traz mais diversificação de estilos e permite comparar desempenho entre as casas”, explica.

Processo seletivo conjunto – O processo de escolha das gestoras começou logo após o anúncio da saída da Schroders. A Elos iniciou um processo formal de seleção para substituir a gestora britânica no mandato de investimento internacional que mantinha desde 2021, estruturado no modelo de investment solutions, em que o gestor tem autonomia para alocar recursos entre renda fixa, renda variável e estratégias multimercado no exterior.

Segundo Sansivieri, o movimento também foi visto como uma oportunidade de reavaliar o mercado. “Quando surgiu o comunicado da saída da Schroders, entendemos que era interessante ir a mercado, ouvir outros gestores e eventualmente buscar condições melhores”, afirma.

O processo inicial envolveu cerca de 30 gestoras analisadas, das quais 19 receberam a RFP (Request for Proposal) com as diretrizes do mandato. Após avaliações quantitativas e qualitativas, sete gestoras foram selecionadas para diligências presenciais, realizadas em São Paulo.

Paralelamente, a Previnorte também passava por uma revisão de sua estrutura de investimentos internacionais. Diferentemente da Elos, que operava com um mandato consolidado no modelo de investment solutions, a Previnorte mantinha cerca de R$ 200 milhões distribuídos em dez feeders funds locais, cada um com um gestor diferente.

Segundo Aline Rosa, gerente de investimentos da Previnorte, o compartilhamento de fundos adotado nessa estratégia de exterior poderá ser usado mais à frente também para outras classes de ativos

“A nossa carteira era composta por vários feeders, com gestores distintos. Avaliamos internamente que faria mais sentido migrar para uma estrutura de fundo restrito, que reduz custo e facilita o monitoramento”, afirma Aline Rosa, gerente de investimentos da Previnorte.

Durante essa análise, a fundação buscou referências no mercado e entrou em contato com a Elos, que já tinha um modelo consolidado de gestão de investimentos externos. As conversas revelaram que as duas entidades estavam diante de um mesmo desafio: redefinir sua estratégia internacional após a saída da Schroders. 

“Vimos que as duas fundações estavam no mesmo momento. A Elos já tinha iniciado um processo de seleção e nós estávamos avaliando fazer algo semelhante”, diz Aline. A partir daí, as duas firmaram um Termo de Cooperação Técnica, permitindo que a Previnorte participasse da etapa final da seleção conduzida pela Elos.

Escala e custos menores – A união das duas fundações ampliou o volume potencial de recursos sob gestão para cerca de R$ 280 milhões, o que fortaleceu o poder de negociação com as gestoras. “Com um volume maior, conseguimos negociar taxas menores. Isso acabou beneficiando as duas fundações”, afirma Aline.

Apesar da importância do custo, Sansivieri ressalta que a decisão final priorizou critérios técnicos e não exclusivamente taxas mais baixas de gestão. “A taxa é relevante, mas não é o único elemento. A gente olha muito a qualidade da equipe, a estrutura operacional e o processo de investimento”, afirma.

Ainda assim, segundo ele, a nova estrutura resultou em uma redução de custos. “As taxas ficaram algo entre 10% e 20% menores do que tínhamos antes.”

Dois gestores e um mandato – Ao final das diligências, UBS e BTG Pactual foram considerados os gestores mais aderentes às exigências das duas fundações. Cada entidade, de forma independente, chegou às mesmas duas casas como finalistas. A Elos, como cotista única do fundo que rodava sob a Schroders, optou por transferir a gestão para o UBS, enquanto a Previnorte decidiu estruturar um novo fundo com o BTG Pactual.

A decisão de manter dois gestores com mandatos semelhantes foi vista pelas fundações como uma evolução do modelo de gestão. “Quando você tem apenas um gestor nesse modelo de investment solutions, é difícil encontrar referência de mercado para comparar. Com dois gestores executando o mesmo mandato, conseguimos avaliar melhor o desempenho de cada casa”, afirma Sansivieri.

Além disso, a presença de dois gestores amplia a diversificação de estilos de gestão. O UBS, por exemplo, adotará uma abordagem de arquitetura mais aberta, incluindo ETFs e estratégias de diferentes gestores globais que não pontuavam no fundo da Schroders (que priorizava os fundos da própria matriz), enquanto o BTG desenvolverá seu próprio modelo de alocação internacional.

A opção por um modelo de fundo compartilhado entre mais de uma entidade de previdência complementar fechada abre caminho para novo modelo, o de compartilhamento de fundos restritos entre fundações. O processo de seleção conjunta e a posterior criação de fundos com regulamentos que prevêem cotistas externos mostra que esse caminho é viável também para outras classes de investimento, além de exterior.

Segundo Aline Rosa, a legislação permite que planos de previdência – que possuem CNPJs próprios – participem como cotistas em fundos restritos estruturados por outras fundações. “É uma inovação que estamos antecipando, primeiramente com fundos de exterior mas, talvez mais à frente, com outras classes de investimento”, diz. “Estamos avaliando fazer algo semelhante também para o segmento de renda variável”.

Na prática, isso pode permitir que entidades menores tenham acesso a mandatos institucionais mais sofisticados sem precisar montar estruturas exclusivas. “Uma fundação pode avaliar a estratégia de outra e decidir investir naquele fundo restrito se fizer sentido para sua política de investimentos”, diz Rosa.

Próximos passos – O fundo da Elos que rodava sob a Schroders já teve sua gestão transferida para o UBS, que iniciou a reestruturação da carteira. O próximo passo será ajustar o regulamento do veículo para permitir a entrada da Previnorte como cotista. Em paralelo, a Previnorte trabalha na estruturação do fundo com o BTG Pactual, cuja conclusão está prevista para o final de março, já prevendo obviamente a entrada da Elos como cotista.

Para as duas fundações, esse modelo de cooperação poderá ser ampliado no futuro. Além de poder se estender a outras classes de ativos, também poderá se estender às outras fundações que possuem patrocinadoras do mesmo grupo da Axia Energia, que são a Eletros, a Real Grandeza e a Fachesf. “As fundações podem compartilhar fundos restritos e aproveitar estruturas já existentes”, explica Rosa.

Segundo Sansivieri, a experiência mostrou que a colaboração entre fundações pode gerar ganhos relevantes de eficiência e governança. “Quando percebemos que juntos teríamos escala suficiente para operar com dois mandatos, vimos que poderíamos entregar mais diversificação e melhores condições para os participantes.”