O início da virada dos juros

Edição 384

Fundos com perfil de caixa em CDI oferecem a liquidez necessária para que o investidor aproveite eventuais janelas de oportunidade em momentos de incerteza, como os trazidos por conflitos geopolíticos, afirma Isaac Marcovistz, gerente executivo de renda fixa e câmbio do BB Asset

O ano de 2025 foi positivo tanto em captação quanto em performance para os fundos de renda fixa e de crédito privado da BB Asset, mesmo atravessando um período de maior volatilidade no segundo semestre, marcado por alguma abertura de spreads e oscilações mais intensas. “As pautas ligadas à campanha eleitoral para a Presidência da República afetaram e contribuíram em parte para esse ambiente mais volátil, mas, no conjunto, a percepção do mercado reconheceu e consolidou o movimento de arrefecimento e de ancoragem da inflação conduzido pelo Banco Central”, observa Isaac Marcovistz, gerente executivo de renda fixa e câmbio.

A expectativa de início do ciclo de corte de juros domésticos trouxe oportunidades de ganhos nesse mercado, tanto para investidores institucionais quanto para pessoas físicas, via Tesouro Direto. Para 2026, o ambiente ainda oferece potencial para novos ganhos na renda fixa, aponta o gestor. “Os investidores conseguiram capturar esses ganhos em 2025 e, em 2026, ainda há oportunidades, especialmente para os institucionais, por meio de títulos que permanecem atrativos frente à inflação”, diz.

Além disso, o momento é de buscar resultados extraordinários na renda fixa à medida que o fechamento das taxas avance. “Uma primeira etapa, marcada pelo ganho com os juros nominais, deverá ser seguida este ano por uma segunda fase, de oportunidades trazidas pelos juros reais – em NTN-B e em títulos que replicam o IMA-B –, tanto para fundos de pensão quanto para os RPPS (Regimes Próprios de Previdência Social)”, avalia Marcovistz.

Nesse cenário, segue relevante a gestão ativa de renda fixa, agora com maior posicionamento em juros reais, apesar da volatilidade que tem marcado os primeiros meses deste ano. A asset mantém a projeção de início dos cortes da Selic ainda em março e uma taxa terminal de 12,5% até o final do ano.

Os fundos com perfil de caixa em CDI também permanecem atrativos, diz o gestor, uma vez que permitem aproveitar ganhos trazidos pela volatilidade, seja nas NTN-Bs, seja em estratégias arbitrais no mercado de bolsa. Esses fundos oferecem a liquidez necessária para que o investidor aproveite eventuais janelas de oportunidade em momentos de incerteza, como os trazidos por conflitos geopolíticos.

“A liquidez oferece a chance de diversificar o caixa para capturar ganhos tanto na renda fixa quanto na bolsa”, afirma.

No crédito privado, o portfólio da casa é composto por ativos robustos, de grau de investimento, que passam pela avaliação da rede do Banco do Brasil, formando uma carteira na qual os principais emissores ainda têm capacidade de suportar o ambiente de juros elevados.

“O início da redução da Selic melhora as condições das empresas e vemos potencial de demanda este ano, principalmente pelos ativos de crédito incentivados”, afirma Marcovistz.

Para o investidor institucional, ele avalia que há maior demanda por emissões de empresas com grau de investimento e por papéis de bancos de grande porte, com rating duplo A ou triplo A, por apresentarem menor volatilidade.

O mercado de crédito privado tem mostrado compressão importante dos spreads, mas, com a redução da Selic, a negociação de papéis no mercado secundário pode levar a uma pequena abertura desses spreads ao longo do ano. “O investidor pode se defender desse efeito graças a um perfil robusto de emissores nas carteiras”, diz.

Em relação aos eventos de crédito ocorridos com diversas empresas em 2025, ele observa que a percepção de robustez dos balanços é fundamental. Além disso, a adoção de critérios de governança ditados pela análise ASG ajuda a mitigar riscos de governança e de fraudes nas empresas.

Ponto de inflexão – A alta demanda dos investidores por crédito privado em 2025 foi acompanhada pela forte necessidade das empresas de emitirem dívida como alternativa ao mercado de ações, já que a janela para captação via IPO ou follow-on permaneceu fechada. “Vimos o aumento dos produtos de renda fixa e crédito, um grande volume de emissões de debêntures e a listagem de produtos ligados aos setores de infraestrutura e imóveis, entre outros. A demanda do investidor permitiu absorver totalmente essa oferta”, observa Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos.

“Estamos mais conservadores nas carteiras. Reduzimos a duration dos portfólios, movimento que já havíamos iniciado em 2025 e que continua agora”, afirma Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Vida, Previdência e Investimentos

Com R$ 95 bilhões de ativos sob gestão até março, a casa tem aproximadamente R$ 34 bilhões desse total voltados para crédito privado. O foco é exclusivamente em ativos high grade, buscando empresas com histórico consistente de geração de caixa.

Segundo Mello, o ano passado refletiu os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos, além das incertezas geopolíticas. “Também chegamos muito perto do fim da isenção fiscal para os produtos incentivados e, quando esse projeto de lei foi derrubado os investidores aliviaram seus portfólios, gerando pressão sobre os spreads durante algum tempo. Em momentos como esse, vemos a importância da gestão ativa de renda fixa”, afirma.

Para 2026, a projeção da casa é de uma Selic terminal de 13%, previsão reforçada pelo impacto da guerra no Irã sobre a economia global. Nesse cenário, ele avalia que a contribuição da queda da Selic não será suficiente para provocar uma mudança significativa no comportamento do investidor.

“Hoje estamos mais conservadores nas carteiras. Reduzimos a duration dos portfólios, movimento que já havíamos iniciado em 2025 e que continua agora”, afirma.

O carrego médio, após a apreciação registrada pelos spreads de crédito no final do ano passado, hoje está um pouco menor, em torno de CDI mais 0,5% ou 0,6%, mas isso não deve incentivar o investidor a mudar suas posições em crédito, analisa Mello.

Embora o cenário atual mantenha a atratividade do crédito, já há sinais de uma possível mudança gradual da renda fixa para outras classes de ativos. “A captação este ano já começa a dar sinais de mudança e os fundos multimercados estão com captação positiva em 2026, o que não ocorria há muito tempo”, diz.

Esse movimento reflete as recomendações dos advisers, que apontam os multimercados como as estratégias mais adequadas para capturar ganhos com a queda dos juros.

“Os fundos de ações não aparecem com destaque porque o investidor estrangeiro entra diretamente na bolsa, e não nos fundos. Então essas carteiras ainda não serão sensibilizadas com uma Selic de 12% ou 13%. O ponto de inflexão este ano será mesmo para os multimercados”, afirma.

A gestão da casa acompanha de perto os eventos de crédito provocados, em parte, pelo impacto dos juros sobre o endividamento das empresas. “Mas não tínhamos alocação direta em nenhuma das companhias que passaram por eventos no ano passado. Depois do caso da Americanas, já não havia mais tanto impacto”, afirma.

Diferencial brasileiro – Embora a guerra no Irã deva gerar maior pressão inflacionária global, o Brasil chega a 2026 com um ponto positivo importante: a perspectiva de fechamento das taxas de juros, avalia Tiago Lima, sócio e head de distribuição da BTG Pactual Asset Management. “O Brasil é o único país atualmente na fase inicial de um ciclo de corte de juros e será muito difícil ocorrer uma mudança estrutural capaz de impedir isso e deixar a Selic parada”, afirma.

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“À medida que o ciclo de juros se volta para baixo, o investidor tende a migrar gradualmente do crédito para multimercados e renda variável”, diz Tiago Lima, da BTG Pactual Asset Management

Segundo ele, indicadores estruturais sólidos contribuem para um cenário mais favorável do que em outras economias. “Acredito que a guerra não terá efeito suficiente para impedir o início do corte da Selic. Temos vários fatores estruturais positivos que reduzem o risco de um choque inflacionário forte provocado pelo petróleo”, avalia.

Entre os fatores favoráveis, ele lembra a mudança de gestão da Petrobras nos últimos anos. “Hoje é uma empresa mais sólida e exportadora”, diz.

O mercado de crédito, que teve desempenho muito positivo em 2025, continua forte em 2026. Porém, à medida que o ciclo de juros se volta para baixo, o investidor tende a migrar gradualmente para multimercados e renda variável. “Nos multimercados já vemos fluxo melhor quando os fundos têm boas cotas, então essa migração deve acontecer antes”, avalia.

Do ponto de vista dos fundos de pensão, o momento pode ser favorável para um retorno gradual à bolsa. “O Brasil virou uma boa opção no contexto global. Vemos upside para a bolsa e os investidores de longo prazo deveriam começar a se reposicionar à medida que o cenário combina corte de juros e inflação controlada”, diz.

Apesar de considerar 2026 ainda como um ano favorável à renda fixa e ao crédito privado, a casa já percebe maior interesse dos investidores por outras classes de ativos. “Temos sido provocados pelos clientes nessa direção. Os triggers estão dados e esse movimento deve começar a acontecer”, diz.

Ele lembra ainda que muitos fundos de pensão passaram a marcar títulos públicos na curva após mudanças regulatórias. “Alguns ficaram mais confortáveis com essa estratégia, mas em determinado momento os títulos vencem e isso pode gerar impactos dependendo do ambiente de mercado”, afirma.

Estar em máximas históricas de juros reais também dificulta realocações táticas para ativos marcados na curva. “Isso pode tornar mais difícil aproveitar um fechamento rápido das curvas de juros”, afirma.

Fuga do óbvio – “O ano de 2025 não foi excepcional para a gestão ativa de crédito porque houve muitos eventos. O nosso fundo de crédito, criado em 2006, gerou menos valor em gestão ativa do que a sua média histórica, mas ainda assim ficamos bem posicionados entre os fundos da indústria”, afirma Antonio Coutinho Correa, portfolio manager de crédito privado da Icatu Vanguarda.

Com R$ 67 bilhões sob gestão, dos quais R$ 22 bilhões estão em crédito privado, a asset tem buscado evitar ativos considerados caros ou excessivamente óbvios. “Emprestar dinheiro para grandes empresas hoje é muito competitivo e o prêmio nos parece baixo diante dos prazos. Por isso temos buscado ativos mais líquidos e mais curtos”, afirma.

A carteira também aumentou a presença de papéis bancários curtos, com vencimentos entre um e três anos, como parte da estratégia defensiva. “Temos encontrado oportunidades também em ativos um pouco menos líquidos, como CRIs – mesmo aqueles não diretamente ligados ao setor imobiliário – e em FIDCs, que são eficientes para financiar algumas estruturas, embora às vezes tenham menor liquidez”, afirma.

Em 2026, a estratégia permanece semelhante, pois o volume de emissões primárias continua fraco. “O fluxo está mais volátil para crédito, mas a percepção segue positiva e os fundos muito líquidos devem continuar competitivos”, diz.

A aversão ao risco começou forte este ano, com diversos eventos – como o da Raízen –, o que se reflete nos preços e pode gerar oportunidades em alguns ativos. “Se os juros começarem a cair e a janela de equities permanecer aberta, o ambiente pode melhorar para algumas empresas mais alavancadas que, por enquanto, estão fora do nosso portfólio”, afirma.

Melhores gestores em Renda Fixa (arquivo em pdf)