Edição 384

Com fortes emoções já no primeiro trimestre, o ano de 2026 traz para o centro das estratégias de multimercados a questão geopolítica, capaz de determinar preços e provocar um choque global de energia. “Separamos os fundamentos para a economia global, que chegaram ao início deste ano bastante positivos. Há crescimento puxado pela tecnologia nos Estados Unidos, inflação comportada e a chegada do novo chairman do Federal Reserve, fatores que podem indicar corte de juros no segundo semestre”, avalia Fernando Cavallete, superintendente da área de portfolio specialists da Itaú Asset.
No restante do mundo, a visão para o crescimento também começou o ano positiva, com economias próximas do juro neutro e expansão adequada. “Agora, o choque de commodities provocado pelo conflito no Oriente Médio pode ter impacto imediato sobre a inflação em vários países. Se isso acontecer, poderemos ver um choque de atividade, mas esse ainda não é o nosso cenário base”, diz.
Mesmo que a guerra se dissipe em prazo relativamente curto, ainda que sem troca de regime no Irã, os efeitos do conflito devem permanecer devido ao prêmio de risco associado ao choque. Os setores de infraestrutura, energia e defesa já foram afetados e a casa observa esse cenário com cautela, afirma Cavallete.
“Estamos aplicados em juros no Brasil e a expectativa é de que o Banco Central comece a cortar a Selic agora em março. Nossa visão para o ano é construtiva para as estratégias multimercados. A Austrália sinaliza alta de juros e a zona do euro apresenta direção incerta para as taxas, o que permite montar carteiras bem diversificadas em várias teses”, afirma.
Nas carteiras com gestão discricionária, a asset tem aumentado a alocação em multimercados estruturados. “Eles tiveram desempenho muito bom e as fundações têm nos provocado nesse sentido”, diz.
O volume de ativos sob gestão em multimercados macro chegou a R$ 28,5 bilhões no final de 2025, parcela relevante do total administrado pela casa. Praticamente todos os fundos possuem versão institucional.
A performance positiva das empresas americanas na vanguarda da inteligência artificial foi um dos fatores que beneficiaram as estratégias multimercados da Itaú Asset em 2025. “Os anos de 2024 e 2025 foram bons para nossos multimercados, tanto em performance quanto em captação, apesar da forte demanda por ativos isentos no Brasil entre o terceiro e o quarto trimestres”, afirma.
As estratégias mais bem-sucedidas capturaram ganhos nos mercados internacionais, apostando em empresas do ecossistema de inteligência artificial contra ativos de companhias de consumo básico. No Brasil, os ganhos vieram principalmente de ações dos setores de utilities e consumo discricionário, além da estratégia em juros.
Também houve geração de valor no mercado de juros internacional, especialmente com o movimento de queda das taxas no México, onde os juros passaram de 9,5% no início do ano para 7,5% ao final de 2025.
Mas o principal driver foi a queda dos juros no Brasil, com o mercado começando a precificar o ciclo de corte da Selic. “Tivemos também um movimento importante na curva de juros do Reino Unido, apostando na queda das taxas porque o mercado de trabalho lá estava bastante enfraquecido”, afirma Cavallete.
Apesar disso, a indústria de multimercados no Brasil ainda enfrentou um ano difícil em 2025, com fluxos negativos. “Estamos otimistas com o fluxo para nossos fundos e a capacity de R$ 1,5 bilhão a R$ 1,7 bilhão já está quase se esgotando. O mercado busca produtos capazes de performar bem em ambientes mais desafiadores e conseguimos entregar isso”, afirma.
Para que o fluxo para a indústria se torne mais consistente, Cavallete avalia que será necessário melhorar a percepção de risco-retorno da classe. Ele lembra que 2025 começou difícil, com o governo Trump adotando uma política agressiva de tarifas comerciais. “Mas ao longo do ano esse choque foi absorvido pela economia americana. O receio inicial era de uma inflação descontrolada ou de desaceleração econômica mais forte, o que não se confirmou”, afirma.
Baixa correlação e resiliência – A perspectiva de cortes de juros pelo Federal Reserve, reduzindo o custo de capital, combinada com o início do ciclo de queda da Selic no Brasil eram os dois principais vetores do cenário desenhado no final de 2025, afirma André Lion, sócio, CIO e gestor da estratégia de ações da Ibiuna Investimentos.
“O Fed chegou a cortar os juros três vezes, com reduções de 0,25 ponto percentual, e no Brasil a inflação deu sinais de convergência, o que seria positivo para as empresas graças à redução do custo de capital”, explica.
Apesar de acompanhar de perto o cenário político desde meados de 2025, a casa atribuía menor importância a esse fator, já que a eleição brasileira ainda estava distante.
Nas empresas, a busca foi por negócios com atividade operacional de baixa correlação com o PIB e menor alavancagem financeira. “Mesmo agora, com a Selic em torno de 14,5%, ainda é uma taxa muito alta. Continuamos buscando empresas mais resilientes, até porque essa estratégia funcionou bem em 2025”, afirma.
Se o PIB crescer novamente entre 1,5% e 2% neste ano, os resultados operacionais das empresas devem ser adequados, embora não extraordinários. “Se o ciclo de queda dos juros vier, a despesa financeira melhora e os lucros podem crescer entre 10% e 20% este ano”, diz.
Enquanto isso, o fluxo estrangeiro continua entrando na bolsa brasileira, ainda que em ritmo menor que no início do ano. “Foram cerca de R$ 42 bilhões até fevereiro, mas hoje o ritmo já não é o mesmo de janeiro”, observa.
Segundo Lion, investidores globais têm revisado seus portfólios após forte concentração em tecnologia e ativos americanos. “A realocação já começou e os mercados emergentes se encaixam bem nesse movimento porque os valuations ainda estão bastante descontados”, afirma.
No cenário macro, a expectativa segue sendo de crescimento do PIB entre 1,5% e 2%. “O Copom pode cortar a Selic em cerca de 0,5 ponto percentual, mas ainda é cedo para cravar”, avalia.
Sobre o conflito no Oriente Médio, ele acredita que o Brasil tende a ser beneficiado. “A América Latina está geograficamente distante do conflito, não tem vínculos diretos com os países envolvidos e possui commodities e oportunidades relevantes em infraestrutura”, afirma.
A principal dúvida é o comportamento do petróleo. “A questão é saber o que acontecerá se o barril ultrapassar os US$ 100. Poderia haver um movimento global de risk-off, mas por enquanto isso ainda não aconteceu”, diz.
Na carteira de multimercados da asset, com forte exposição a ações, a preferência no Brasil é por empresas maiores e mais líquidas. “Buscamos empresas com maior resiliência e menor dependência do cenário de curto prazo”, afirma. Entre os exemplos estão Multiplan, no setor de shopping centers; Auren Energia, no setor elétrico; Vivara, no varejo; e Bradesco, no setor bancário.
FoF de FII atentos aos juros – As estratégias multimercados com exposição ao mercado imobiliário por meio de FoFs (fundos de fundos) tiveram um ano positivo, refletindo a recuperação dos fundos imobiliários. “Os FIIs vieram de um ano muito duro em 2024 por causa dos juros altos, mas tiveram desempenho oposto em 2025, quando o mercado passou a precificar queda da Selic”, afirma Lucas Kranjc Simon, sócio e gestor de FoFs e FIIs da Kinea Investimentos.
Nesse contexto, ele explica o bom desempenho do fundo KFOF11 da seguinte maneira: “A gestão se baseia em fazer boas compras e vendas e melhorar o dividendo. No ano passado conseguimos girar bem a carteira para gerar ganho de capital no final do ano e aumentar o rendimento”, afirma. A estratégia conta hoje com 20 a 25 FIIs, que representam cerca de 70% da carteira.
Em 2026, até fevereiro, o IFIX apresentou movimento mais lateral e passou por pequena correção.
“O ano começou com a discussão sobre o corte de juros no Brasil. Quanto mais rápido isso ocorrer, maior será o potencial dessa classe”, afirma.
Antes da guerra envolvendo o Irã, o cenário era bastante positivo, mas o conflito elevou as expectativas para a Selic terminal. “A projeção passou para algo entre 12,5% e 12,75%, contra estimativas anteriores próximas de 12%, principalmente por causa da preocupação com o impacto do petróleo na inflação”, diz.
Melhores gestores em Multimercados (arquivo em pdf)