ESG em fase mais pragmática

Edição 383

Hirata,Luzia(Santander) 23nov
“A emoção saiu de campo e passamos a olhar mais para fatores concretos. Houve um salto expressivo nesse sentido”, explica Luzia Hirata, da Santander Asset Management

O debate sobre investimentos sustentáveis tem sido afetado, em âmbito global, pelo recuo dos Estados Unidos na agenda ESG desde o início do governo Trump. O movimento reduz o ímpeto observado nos últimos anos, mas também abre espaço para oportunidades em outros países. No Brasil, 2025 marcou a internalização mais clara desse debate, com a realização da COP 30 e de um grande evento do Principles for Responsible Investment (PRI), programa global voltado à promoção dos investimentos baseados em critérios ambientais, sociais e de governança.

“Isso foi importante porque deu maior ênfase a discussões sobre energias renováveis, minerais críticos e ao papel do Brasil em uma economia de transição”, avalia Luzia Hirata, responsável pela área de ESG da Santander Asset Management. Segundo a executiva, o mercado brasileiro também passou, no último ano, a adotar uma postura mais pragmática em relação ao ESG. “A emoção saiu de campo e passamos a olhar mais para fatores concretos. Houve um salto expressivo nesse sentido, mas ainda é preciso colocar as coisas nos seus devidos lugares porque, apesar do ambiente geopolítico incerto, as questões ESG continuam a ser cada vez mais relevantes”, afirma. Essa avaliação se aplica não apenas às questões climáticas, mas também aos fatores sociais e de direitos humanos.

Na sua análise, a forte euforia em torno dos produtos sustentáveis acabou gerando distorções. “Toda essa euforia acabou criando uma bolha e agora estamos conseguindo parar para avaliar melhor os critérios utilizados”, diz. Com esse ajuste de expectativas, o mercado passou a cobrar mais das empresas, exigindo maior coerência entre discurso e prática, além de relatórios mais transparentes e consistentes.

Mudança na regulação – Um dos sinais mais claros dessa mudança está na regulação. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) passou a exigir avanços nos relatórios de informações financeiras das companhias no que se refere à sustentabilidade. As informações relacionadas ao ESG devem estar alinhadas aos padrões IFRS 1 (General Requirements for Disclosure of Sustainability-related Financial Information) e IFRS 2 (Climate-related Disclosures), ambos emitidos pelo International Sustainability Standards Board (ISSB).

Essa evolução regulatória, avalia Hirata, está diretamente ligada à cobrança dos investidores institucionais brasileiros, que passaram a exigir menos discurso e mais práticas objetivas, à medida que o mercado de capitais local entra em uma nova etapa de transparência e de integração dos critérios de sustentabilidade às estratégias corporativas.

“Aproveitamos os eventos de 2025 para intensificar o contato com esses investidores e ouvir suas demandas. A maior preocupação deles é entender como fazemos as análises ESG dos emissores de crédito privado e como monitoramos esse risco, porque eventos de crédito acontecem o tempo todo, seja por questões ambientais, sociais ou de governança”, explica.

Nesse contexto, a discussão sobre a oferta de produtos frente à demanda crescente ganhou relevância. Hirata cita o terceiro leilão do programa Eco Invest, cujo resultado foi divulgado pelo Tesouro Nacional em 28 de janeiro de 2026. “São R$ 15 bilhões destinados a private equity em atividades sustentáveis, mas a questão é saber se teremos ativos suficientes. Não é trivial estruturar FIPs, por exemplo”, observa.

No mercado acionário, é possível perceber uma melhora na qualidade das informações, impulsionada pelas exigências aplicáveis às companhias listadas. Já no crédito privado, a incorporação de novos emissores tem contribuído para ampliar a oferta, mas ainda há necessidade de desenvolvimento de mais produtos. “Na asset, temos uma carteira ampla. Lançamos em 2024 um fundo de crédito ESG, em parceria com a seguradora Generali, que se consolidou em 2025, e agora buscamos maior alinhamento com as metodologias globais, além de ampliar a captação”, afirma.

A partir deste ano, surge também o desafio de alinhar a nova taxonomia sustentável brasileira à taxonomia verde europeia e à taxonomia da Febraban. “Será um desafio relevante fazer esse alinhamento com as regras internacionais. Aqui na asset, já seguimos a taxonomia europeia há algum tempo e agora contamos com o apoio do time internacional para lidar com as diferenças”, relata Hirata. Ao mesmo tempo, ela observa que “talvez os europeus também possam aprender conosco, especialmente no que diz respeito à maior atenção aos aspectos sociais”.

Em 2025, cresceu o interesse dos investidores institucionais pelos produtos sustentáveis da gestora, que mantém estratégias ESG tanto em renda variável quanto em crédito. O destaque ficou para as seguradoras internacionais, em especial as europeias, uma vez que o alinhamento da grade de produtos às regras do regulador europeu é um requisito mínimo para esses investidores.

“A taxonomia brasileira é um avanço importante porque traz maior clareza e oferece mais conforto ao mercado na definição de produtos e critérios, inclusive para evitar o risco de greenwashing”, diz Hirata. Um trabalho posterior, a ser conduzido pela Anbima e pela CVM, deverá discutir como incorporar essa taxonomia às regras dos fundos de investimento.

Outro ponto relevante da agenda, que causou forte repercussão em 2025, foi a discussão sobre o mercado de créditos de carbono, em razão do artigo 56 da Lei 15.042/2024 (Lei do Mercado de Carbono), que obriga seguradoras e entidades de previdência a investirem 0,5% de suas reservas nesses ativos.

“O tema está no STF, que discute a constitucionalidade da medida. Será muito positivo se essa obrigação for derrubada, mas, de todo modo, o debate foi importante porque levou os investidores institucionais a olhar com mais atenção para esse mercado e para o seu potencial, com uma visão mais voltada às oportunidades”, acredita Hirata.

O mercado regulado de carbono brasileiro, sancionado em dezembro de 2024, inicia sua operação estruturada ao longo de 2026.

“Hoje, 100% dos ativos elegíveis nos nossos fundos IS contam com rating ESG, e os clientes utilizam nossa base para integrar esses critérios às suas carteiras”, afirma Daphne Breyer, da BB Asset

Ampliando agenda ESG – Com pouco mais de R$ 15 bilhões sob gestão em diversas estratégias de fundos de investimento sustentáveis, com selo IS, a BB Asset Management definiu sua meta para 2030 e pretende dobrar esse patrimônio líquido, alcançando R$ 30 bilhões, informa Daphne Breyer, head de ESG da casa. Do volume atual, a maior parte está alocada em estratégias de renda variável, mas o portfólio cobre de forma ampla as dimensões ambiental, social e de governança.

Para atingir a meta, a gestora pretende lançar ainda este ano novas estratégias ESG voltadas principalmente aos fundos de pensão, mas também a RPPS e seguradoras. “Hoje, 100% dos ativos elegíveis contam com rating ESG, e os clientes utilizam nossa base para integrar esses critérios às suas carteiras”, afirma.

A volatilidade da renda fixa é um desafio a ser enfrentado, e a casa busca oferecer estratégias além do crédito privado, embora a renda fixa deva continuar com peso relevante nas carteiras das fundações, avalia Breyer. “A taxonomia brasileira permitirá enquadrar outros segmentos do mercado, como energia e minerais de transição, e não apenas títulos incentivados”, diz.

Embora atue com investimentos sustentáveis desde 2005, a gestora aprovou em 2025 sua primeira política formal de investimento responsável, que até então existia como diretriz, e criou uma lista de exclusões. “Na renda variável, evoluímos no relacionamento e nas iniciativas de engajamento com as companhias investidas, que precisam ser resilientes diante do cenário de mudanças climáticas, uma realidade que já chegou”, afirma.

Na grade ESG, o portfólio é composto por fundos exclusivos e de prateleira, complementados pelos produtos da Régia Capital, gestora especializada em fundos ESG e de impacto, fruto da parceria criada em 2024 entre a BB Asset e a JGP.

“Fomos patrocinador líder do PRI in Person, realizado em São Paulo em 2025, com o objetivo de contribuir para um debate saudável sobre o tema e para a construção de uma sociedade mais sustentável”, diz Breyer.

Com R$ 1,7 trilhão sob gestão, a BB Asset tem 98,5% de seu AuM coberto por metodologia ESG nos mercados de ações, crédito, títulos soberanos e produtos estruturados, ficando de fora apenas os derivativos. “Também realizamos avaliação ESG de outras assets parceiras”, acrescenta.

Em relação à materialidade, Breyer lembra que a Resolução CVM nº 193, que introduz o conceito de dupla materialidade, deve facilitar a ampliação do escopo de análise. “A perspectiva é de crescimento do mercado de dívida sustentável ainda este ano e em 2027, impulsionado pela taxonomia brasileira”, explica.

A gestora também estimula os emissores desses ativos e hoje mantém R$ 11 bilhões em títulos com essas características em carteira. Será necessário um período de amadurecimento para que as empresas implementem plenamente as novas regras, admite Breyer, mas ela avalia que o avanço será significativo para o mercado e para a sociedade.

“A principal questão é entender como as gestoras integram ESG aos seus processos”, diz Renato Eid, da Itaú Asset

Diligência em foco – A Resolução Previc 26, que incentiva as EFPC a adotarem critérios ESG em seus investimentos, representa mais um passo em uma agenda já consolidada entre os investidores institucionais, avalia Renato Eid, head de estratégias indexadas e integração ESG da Itaú Asset Management.

Segundo ele, a regulação não altera a direção seguida pelo investidor institucional. “A principal questão hoje não é mais discutir um produto ou uma estratégia específica, mas entender, de forma mais ampla, como as gestoras integram ESG aos seus processos. O investidor tem hoje maior diligência na seleção e no monitoramento dos gestores”, afirma.

O desafio da obtenção de dados segue presente, ainda que tecnologia e inteligência artificial tenham ajudado a reduzir parte do problema. “É preciso avançar também na padronização, e iniciativas como a taxonomia são positivas porque ajudam a entender melhor o estágio das empresas e a dar comparabilidade aos dados”, observa.

Eid acredita que a evolução do mercado e o aumento das exigências de transparência tornaram mais fácil identificar casos de greenwashing. “Há mais maturidade para reconhecer essas práticas, mas ainda é necessário ter calma e humildade para admitir que há muito a aprender”, diz.

Na asset, que atua com foco sustentável desde 2004, o tema é tratado de forma objetiva. A integração dos critérios ESG ao processo de investimento é acompanhada por comitês de crédito com poder de veto. “Se esse poder não é exercido, há questionamento. Ao mesmo tempo, buscamos não utilizá-lo de forma excessiva”, afirma.

Na renda fixa e no crédito, a casa conta com dois produtos com selo IS da Anbima e com a avaliação de uma consultoria externa. “Essa opinião secundária é importante”, diz Eid. Além disso, a gestora publica relatórios completos em seu site, reforçando a transparência como pilar do ESG.

“Brasil tende a se destacar em lavoura integrativa e manejo do solo”, diz Marcos di Tullio, da Régia Capital

Vantagem brasileira – A dificuldade na disponibilidade e na comparabilidade de dados segue como uma das principais dores da gestão em investimentos sustentáveis, destaca Marcos di Tullio, co-head de sustentabilidade da Régia Capital. “É necessário um trabalho rigoroso e um time robusto, porque não é possível automatizar processos quando as empresas divulgam informações em formatos distintos”, afirma.

No mercado de crédito privado, esse desafio é ainda mais evidente. “Desde o início da integração ESG, ficou claro que não seria possível depender apenas de provedores externos”, diz. Na Régia, oito profissionais atuam exclusivamente na área de sustentabilidade.

A implementação gradual da taxonomia brasileira elevará o nível de exigência, especialmente em setores como o agronegócio, com foco em informações relacionadas ao desmatamento. Embora ainda esteja atrás da Europa, o Brasil vem avançando com a taxonomia e com o mercado de carbono.

“Hoje, o Brasil é um protagonista relevante em ESG, por sua matriz energética limpa, pelos minerais críticos e pelo capital humano que possui”, avalia di Tullio. Ele observa que temas ligados à geopolítica, como minerais críticos e terras raras, tendem a ganhar relevância global, como mostra a criação de um fundo do BNDES voltado a esse setor.

Outro campo em que o País tende a se destacar é o das soluções baseadas na natureza, como a lavoura integrativa e o manejo do solo. “A Embrapa é um celeiro de conhecimento. Temos água, terras e capacidade de exportar serviços e técnicas baseadas na natureza”, afirma. Na Régia, a preferência é por setores com maior vantagem competitiva. “Em cinco anos, o Brasil pode se tornar uma potência em agricultura sustentável e também na mineração global, por conta dos minerais críticos da transição”, diz.

Na gestora, que administra cerca de R$ 14 bilhões, a maior alocação está em fundos de crédito, informa Maria Salgado, responsável pelo relacionamento com investidores institucionais. “Desse total, R$ 3 bilhões estão em um veículo desenhado para investidores institucionais, com perfil high grade. Também vamos lançar um FIP de minerais críticos, além de estratégias alternativas e um fundo de crédito high yield, com versões enquadradas para institucionais”, conclui.