Edição 383

Signatária desde 2006 do PRI (Principles for Responsible Investment), programa global que promove a incorporação dos princípios ambientais, sociais e de governança aos investimentos, a Fundação Valia registrou em 2025 uma melhora de 66% em seu nível de maturidade na aplicação dos padrões do PRI em comparação com o ano anterior, informa Maurício Wanderley, diretor de Investimentos.
A avaliação conduzida pelo PRI refletiu uma evolução na adequação das políticas da entidade às melhores práticas internacionais de investimentos sustentáveis, observa o diretor. Como o referencial adotado pelo programa é o mercado global, esses padrões se tornam ainda mais desafiadores de implementar na renda variável brasileira, em função da limitação de opções disponíveis na bolsa local.
Apesar dessas dificuldades, a entidade superou suas próprias metas ESG. “Tínhamos definido um objetivo de adequação que não era tão ousado, mas acabamos superando esse patamar porque identificamos espaço para avançar mais”, afirma.
Os questionários do PRI utilizados na avaliação incluem diversos itens relacionados ao ativismo do investidor. “Temos uma pessoa dedicada a esse tema e a intenção é aprofundar continuamente essa evolução. Temos mergulhado nas informações do PRI para avançar nas nossas metas”, diz Wanderley.
Em 2026, a entidade decidiu fazer uma pausa nesse processo para retomá-lo em seguida, com a perspectiva de subir mais um degrau na avaliação do PRI entre 2027 e 2028. “O esforço precisa ser real e fazer sentido. Mesmo assim, continuaremos acompanhando de perto o trabalho dos gestores ao longo de 2026”, afirma.
O relacionamento com os gestores externos foi fundamental para esse resultado, uma vez que os mandatos precisam estar muito bem alinhados e a aderência aos critérios ESG deve estar claramente definida nos contratos.
ESG na seleção dos gestores – Embora a fundação incorpore a filosofia da sustentabilidade às suas políticas de investimento há bastante tempo, houve uma mudança relevante de abordagem a partir do momento em que deixou de ter carteira própria de renda variável e passou a adotar a gestão terceirizada dessa classe de ativos. “Quando tínhamos carteira própria, éramos mais ativos na indução desses princípios junto às empresas investidas e adotávamos critérios para evitar determinados setores”, observa Wanderley.
Com a adoção de fundos de valor e a terceirização da carteira de ações, a incorporação dos princípios ESG passou a ocorrer principalmente por meio da seleção e do monitoramento dos gestores. No início desse processo, ele lembra que a tarefa era mais difícil do que hoje, pois, na euforia inicial em torno do tema, muitas casas afirmavam fazer “tudo” em ESG. “Queríamos influenciar os gestores para que esses princípios fossem efetivamente incorporados às suas políticas, algo essencial para o investidor de longo prazo”, diz.
A Resolução Previc nº 26 atua como um importante fator de indução do ESG nas fundações, avalia Wanderley. “A nova regulação veio para melhorar a transparência e a comunicação, além de estimular a adoção de políticas de diversidade”, afirma.
Para o diretor, torna-se cada vez mais necessário pensar em como endereçar o ESG nos portfólios de forma objetiva e inteligente. Os gestores evoluíram nesse aspecto nos últimos anos, com a sustentabilidade se tornando uma preocupação real, mas ainda existem desafios. “Esse é um processo longo, no qual os próprios gestores têm interesse em avançar. No nosso caso, esse compromisso é avaliado logo no início do mandato e pode, inclusive, levar à exclusão de algumas casas”, afirma.
Atualmente, a Valia prepara uma revisão de seus mandatos de valor para avaliar o grau de cumprimento dos princípios ESG pelos gestores terceirizados de renda variável.

Ampliação para outras classes – Na Vivest, o principal objetivo da política de investimentos sustentáveis em 2026 é ampliar a integração dos critérios ESG para além da renda variável, incorporando-os também a outras classes de ativos, informa Luciana Puccetti, gerente executiva de renda variável e análise de investimentos. “Hoje, o foco principal está na renda variável e no crédito privado, onde buscamos avaliar de forma mais profunda a materialidade desses fatores e sua influência direta na relação risco-retorno”, explica.
Além disso, a entidade já se prepara para atender às exigências da Resolução Previc nº 26, o que reforça a importância de alinhar as práticas de investimento à regulação e à sustentabilidade de longo prazo.
Tanto na renda variável quanto no crédito privado, a intenção é expandir e aprofundar o atual processo de integração ESG, utilizando a quantificação financeira dos temas materiais de cada setor. Isso permitirá direcionar melhor os esforços de engajamento e mensurar de forma mais objetiva os impactos alcançados.
Nas carteiras multimercados e de investimentos no exterior, por sua vez, a estratégia passa pela ampliação dos critérios ASG na seleção e no monitoramento dos gestores parceiros, assegurando que os investimentos terceirizados também estejam alinhados às práticas sustentáveis.
A fundação parte do entendimento de que as questões de sustentabilidade impactam diretamente o desempenho de seus investimentos. “Trabalhamos continuamente para aprimorar a integração desses fatores nas análises, pois eles são uma ferramenta essencial de mitigação de riscos reputacionais e financeiros, além de representarem um diferencial estratégico para a sustentabilidade das carteiras no longo prazo”, avalia.
Indicadores-chave – Puccetti destaca avanços no monitoramento das empresas investidas, com a identificação de indicadores-chave e o uso de métricas consolidadas, como a pegada de carbono e os ratings ESG das carteiras. “Também intensificamos o engajamento ativo com as empresas, tanto de forma individual quanto coletiva, para tratar temas materiais de cada setor”, acrescenta.
Outro movimento relevante foi a substituição da ferramenta externa de rating ASG. “A adoção de um novo fornecedor fortaleceu nossa capacidade de monitoramento e avaliação dos impactos socioambientais”, afirma.
O engajamento com as empresas, já consolidado como parte da metodologia da fundação, é a principal estratégia adotada na renda variável, assim como o impacto dos ratings nas recomendações de compra e venda feitas pelos analistas. A Vivest também exerce o direito de voto em assembleias de empresas relevantes de seu portfólio, especialmente em temas considerados materiais.
“No crédito privado, utilizamos uma metodologia própria de rating, que incorpora a nota ASG na avaliação da qualidade dos emissores”, afirma. Já nos investimentos internacionais, o foco está no acompanhamento das práticas dos gestores terceirizados.
A avaliação é de que a qualidade das informações ainda é bastante heterogênea no mercado. “Algumas empresas divulgam dados superficiais, enquanto outras já avançaram muito em transparência e padronização. Ainda há necessidade de relatórios mais comparáveis e alinhados às melhores práticas internacionais”, diz.
A Resolução Previc nº 26, na avaliação da fundação, traz impacto positivo ao estabelecer diretrizes claras para a incorporação do ESG aos investimentos. “Já vínhamos alinhando nossas políticas e relatórios, especialmente na avaliação dos temas materiais por setor. Nossa governança está estruturada para atender plenamente às novas regras”, afirma.
O próximo passo será acompanhar de perto a implementação da taxonomia brasileira pelos gestores e fundos de investimento.

Oferta ainda é o gargalo – A força do regulador ajuda a sustentar a agenda ESG dentro das EFPC e funciona como apoio para ampliar esse tipo de alocação, observa Francis Nascimento, diretora de investimentos da Prevcom. “O ESG já consta da nossa política de investimentos. Solicitamos aos gestores externos a documentação exigida pela Resolução Previc nº 26 e o tema está incorporado ao nosso processo de due diligence. Ele pode ser decisivo na seleção dos gestores”, afirma.
Atualmente, os investimentos ESG representam 8% da carteira total da fundação, sendo a maior concentração na carteira de crédito privado, acompanhando a expansão desse mercado.
A Prevcom mantém exposição ESG em todas as classes de ativos em que investe: dois fundos de crédito privado, um fundo de ações globais, um FIP de impacto da BTG Pactual e um fundo imobiliário, somando cinco gestores diferentes. Todos utilizam critérios ESG em suas metodologias, seja por meio de fundos IS, seja por integração ESG.
O principal desafio, segundo Nascimento, é a baixa oferta de produtos adequados. A renda variável é a classe mais restritiva, em função da limitação da bolsa brasileira. “Fica difícil excluir algumas blue chips, o que complica a seleção de fundos de ações. Já os fundos globais oferecem um leque maior de opções”, diz.
A fundação pretende ampliar sua carteira com um novo fundo de crédito que migrará para a estratégia sustentável, em parceria com a XP. “Os fundos sustentáveis não sofreram com os recentes problemas do mercado de crédito justamente por conta da metodologia e da governança mais robustas”, lembra.
Para as EFPC, um desafio relevante será compreender como se dará a adequação à taxonomia sustentável brasileira. “Esse processo precisa ser transparente e comparável entre os pares. As regras ainda precisam estar mais alinhadas, porque cada fundação tem sua própria realidade”, avalia.
O cenário ideal, diz Nascimento, seria contar com um profissional dedicado ao tema e um comitê de sustentabilidade, mas isso nem sempre é viável em equipes enxutas. “Temos que olhar para tudo, não apenas para o ESG. É um momento de aprendizado e adaptação. Já há um número expressivo de EFPC no PRI e também no código de stewardship da Amec – a Prevcom é signatária de ambos –, mas o processo de maturação ainda é longo”, conclui.

Maturidade ainda é desigual – Na Fundação Libertas, os princípios ESG estão integrados ao processo de seleção de gestores principalmente nos aspectos de governança, due diligence de integridade e filtragem negativa, explica Juliana Miguez Koehler, diretora de investimentos e controladoria. A entidade mantém carteira própria apenas nos segmentos ilíquidos, como títulos públicos marcados na curva, imóveis, FIPs e operações com participantes.
“Estamos em um processo intenso de evolução. Aderimos ao PRI no final do ano passado e já trabalhamos para ampliar o uso desses critérios, inclusive com o desenvolvimento de um score ESG para gestores e fundos”, afirma. A fundação também firmou acordos de prestação de serviços com gestores para uso de critérios e reportes ESG e instituiu uma comissão de sustentabilidade com foco em investimentos responsáveis.
O grau de maturidade dos gestores na integração ESG varia bastante. “Alguns fundos já incorporam plenamente a análise ESG na tomada de decisão, contam com políticas estabelecidas, comitês ESG, reportes alinhados ao GRI e análise de dupla materialidade, estando totalmente aderentes à nova legislação”, detalha.
Embora os benefícios nem sempre sejam perceptíveis no curto prazo, os ganhos se tornam evidentes ao longo do tempo. “Após a pandemia, a importância da sustentabilidade ficou ainda mais clara. São investimentos com riscos mais controlados, empresas mais resilientes e maior previsibilidade de retornos”, afirma.
Com dados ainda incipientes e um mercado concentrado, o desafio permanece em integrar essas informações aos modelos de decisão e encontrar oportunidades que ofereçam boa relação risco-retorno sem elevar custos. Ainda assim, a experiência da fundação indica que os investimentos com características ESG apresentam desempenho igual ou superior à média, especialmente nos fundos de renda fixa com crédito privado.
As recomendações da nova regulação da Previc estão alinhadas às práticas internacionais e às exigências de outros reguladores, como Banco Central e Susep, avalia. “Foi uma evolução importante para o setor. Agora, cabe às fundações estruturar seus processos internos de acordo com porte e complexidade, com o cuidado de não gerar custos excessivos”, conclui.