Edição 383

O crescimento do mercado de dívida sustentável, que até poucos anos atrás era incipiente no Brasil, levou o número de operações com títulos verdes e sustentáveis a ultrapassar 500 emissões, somando mais de R$ 450 bilhões. “Com cerca de dez anos de existência, esse mercado já se consolidou como uma opção de investimento para quem tem um olhar ESG, busca impacto positivo e melhor gestão de risco nas carteiras”, afirma Guilherme Teixeira, sócio-diretor de finanças sustentáveis da consultoria ERM Nint, especializada em ESG.
Para os fundos de pensão, em especial, esse mercado se torna ainda mais relevante à medida que esses investidores ampliam a alocação em ativos de dívida privada. Nesse contexto, os títulos sustentáveis oferecem um caminho eficiente dentro dessa classe, avalia o consultor. “Os títulos verdes ainda predominam, embora, nos últimos cinco anos, tenha havido uma diversificação maior dos ativos”, observa.
Os títulos de dívida ESG podem estar vinculados a metas de sustentabilidade – caso em que o emissor se compromete com determinados objetivos, mantendo flexibilidade no uso dos recursos – ou podem ser estruturados de forma “carimbada”, com destinação específica para projetos. “São esses últimos que têm predominado no mercado brasileiro”, explica Teixeira.
Esse segmento ganhou impulso relevante com a autorregulação da Anbima, que, segundo o consultor, ajudou a estabelecer padrões mais claros. “Nos fundos com selo IS ou que fazem integração ESG, os próprios proprietários de ativos passaram a cobrar alinhamento, o que contribuiu para consolidar práticas mais homogêneas”, afirma. Apesar do avanço, ele ressalta que o mercado ainda precisa evoluir em regulação e autorregulação, pois os objetivos reais e os impactos de sustentabilidade nem sempre estão claramente definidos.
Mapa para os investidores – A taxonomia sustentável, na avaliação de Teixeira, cumpre papel central nesse processo ao indicar o que pode ser considerado efetivamente verde. “Ela funciona como um mapa para os investidores, melhora o diálogo com os fundos e pacifica a discussão estratégica”, diz.
Nesse contexto, a Resolução Previc 26 teve papel relevante ao estimular a agenda ESG entre os fundos de pensão brasileiros, que historicamente são menos ativos nesse tema do que seus pares internacionais. Agora, observa o consultor, será fundamental acompanhar sua efetiva implementação.
Ele lembra que o setor bancário já conta com uma regulação robusta, com o Banco Central como referência internacional desde os anos 2000. “Anbima e CVM avançaram mais recentemente, assim como a Susep, com a Circular 666. Houve progresso importante em fundos de investimento e seguros, mas as EFPC ainda não tinham uma norma realmente robusta até agora”, observa.
A nova resolução, antes de caráter mais genérico e aspiracional, passou a explicitar a necessidade de considerar questões ESG de forma prescritiva, ao tratar de materialidade, uso de indicadores e análises. Também trouxe recomendações claras sobre diversidade, equidade e inclusão, ponto que não aparecia de forma estruturada em normas anteriores. “Isso fortalece a agenda ESG especialmente do ponto de vista da gestão de riscos”, afirma Teixeira.
Apesar dos avanços regulatórios, o mercado ainda enfrenta limitações técnicas. “O universo de empresas listadas em bolsa continua reduzido e restringe as opções de investimento. Já na renda fixa privada, a dívida sustentável mostra que há um conjunto cada vez maior de alternativas”, diz.
À medida que surgem fundos com critérios mínimos bem definidos, é natural que os emissores passem a se organizar para ampliar a oferta. Do lado da demanda, porém, ainda falta qualificação. “É importante que os investidores institucionais consigam expressar com clareza o que esperam dos investimentos sustentáveis para que o mercado avance”, avalia.
Em 2026, os desafios geopolíticos globais podem afetar o cenário macroeconômico local e reduzir o apetite de investidores internacionais, com reflexos no mercado de dívida como um todo. Ao mesmo tempo, será necessário acompanhar os efeitos da taxonomia sustentável brasileira e as novas emissões alinhadas a esse padrão. “Por enquanto, o uso da taxonomia não é obrigatório nas emissões, pois ainda há grupos de trabalho discutindo sua implementação”, explica.
No caso das gestoras, o desafio será manter rigor metodológico na estruturação de investimentos de impacto ESG. “É fundamental que a metodologia seja coerente com os produtos oferecidos e integrada ao dia a dia dos fundos, para que os analistas saibam exatamente como aplicar os critérios”, afirma.
Outro ponto relevante é compreender as demandas específicas dos diferentes setores da economia. Teixeira cita como exemplo o acordo entre Mercosul e União Europeia, que envolve exigências rigorosas, como a vedação a produtos associados ao desmatamento. “O agronegócio tem papel central nesse contexto, garantindo que os projetos adotem práticas sustentáveis, o que se reflete diretamente nos ativos e fundos ligados ao setor”, observa.
O avanço da transparência e da padronização, com a adoção dos padrões IFRS, é considerado positivo, mas impõe desafios, especialmente para empresas menores e não listadas. “Nesse cenário, os títulos verdes ajudam porque o próprio rótulo já envolve uma avaliação independente, reduzindo o custo da análise ESG para o investidor”, explica.

Infraestrutura ganha protagonismo – Os fundos de investimento ESG ampliaram seu patrimônio em 2025, impulsionados pela realização da COP 30 e por uma série de iniciativas voltadas à agenda sustentável, afirma Claudio Graeff, sócio-líder da área de infraestrutura da KPMG. “O crescimento dos fundos dedicados a projetos e às necessidades das empresas já vinha ocorrendo, especialmente pela atuação do BNDES, mas a COP funcionou como um catalisador”, diz.
Segundo ele, a regulação da CVM também contribuiu para alavancar esse mercado. A Resolução da Previc não obriga as EFPC a investir em ESG, mas estabelece diretrizes gerais, enquanto a taxonomia brasileira foi bem recebida. “A percepção é de que se trata de uma taxonomia robusta e bem aderente à realidade do mercado”, avalia.
A partir de 2026, a expectativa é de que o setor de infraestrutura, responsável por grande parte das emissões de dívida sustentável, entre em uma nova fase de expansão. “As empresas de infraestrutura terão de se adequar cada vez mais às exigências ambientais e sociais. A Europa já está bastante envolvida nesse tema, assim como os fundos internacionais, o que tende a ampliar os aportes”, conclui.