Edição 383

O ano de 2025 foi transformador sob o ponto de vista dos investimentos sustentáveis no Brasil e conseguiu destacar o País em relação ao resto do mundo, analisa Henri Rysman de Lockerente, gestor especialista em ESG e head da área de crédito privado da BNP Paribas Asset Management no Brasil. Os dois grandes eventos ESG sediados pelo País – a COP 30 e o PRI in Person – contribuíram para esse movimento, assim como o avanço regulatório trazido no final do ano pela Resolução Previc nº 26, que reforçou as recomendações para que os fundos de pensão invistam de acordo com princípios de sustentabilidade.
Mesmo antes da divulgação da portaria que a Previc prepara para os próximos meses, e que deverá facilitar a implementação da Resolução, a demanda dos investidores institucionais já reflete os efeitos do ano de 2025, observa o gestor. “Percebemos essa movimentação ainda no ano passado, quando uma seguradora nos pediu para transformar o seu fundo exclusivo em fundo IS, sem esperar pela portaria”, afirma. “Outro cliente institucional nos pediu um fundo de integração ESG. O curioso é que, no fundo desse cliente conosco, já havia 25% de ativos verdes, e ele ficou surpreso, porque queria integrar, mas na prática o portfólio já estava pronto”, relata.
A criação da taxonomia sustentável brasileira foi outro ponto alto do ano, contribuindo para melhorar a educação em ESG e reduzir o risco de greenwashing. Como resultado desses avanços, a perspectiva é de uma expansão significativa do mercado de produtos sustentáveis ainda em 2026, avalia Lockerente. “O crescimento mais forte deverá ocorrer por meio de fundos exclusivos, o que representará uma mudança importante para as fundações”, afirma.
Na asset, todos os fundos abertos já são elegíveis à integração ESG. Nos fundos exclusivos, a avaliação ocorre caso a caso, em diálogo com os investidores. “Os nossos fundos com selo IS não têm qualquer investimento em ativos ligados a combustíveis fósseis nem ao setor de proteína animal que possa ter vínculo com desmatamento”, explica.
Na grade de produtos da casa, os fundos com selo IS somam patrimônio líquido de R$ 3,2 bilhões, enquanto os fundos que fazem integração ESG totalizam R$ 13,2 bilhões, considerando apenas renda fixa e crédito privado.
O mercado aguardava uma regulação mais robusta, que deve contribuir para ações mais práticas por parte dos fundos de pensão, avalia Lockerente. As seguradoras, por sua vez, já vinham sendo estimuladas pela regulação da Susep, que segue na mesma direção.
O papel do regulador foi decisivo nesse processo, diz o gestor. “As mentes hoje estão mais abertas à adaptação. Nos recentes eventos do mercado de crédito, conseguimos atravessar momentos de estresse sem impactos nos nossos produtos justamente por conta dessa integração”, afirma.

Foco em mensuração – A regulação da Previc já vinha abrindo espaço para o ESG em resoluções anteriores, inclusive com um avanço sutil trazido pela Resolução nº 4.994, que introduziu a discussão sobre materialidade e a obrigatoriedade de critérios claros e objetivos de mensuração, lembra Yara Formigoni, analista de investimentos ESG da Bradesco Asset Management. “Já havia uma sinalização, mas a Resolução Previc 26 se aprofunda mais nesse tema, especialmente no que diz respeito aos segmentos S1 e S2 da classificação das EFPC”, observa.
Segundo a analista, a nova regra “mexe o ponteiro do ESG” ao exigir técnicas mais robustas de mensuração e se conecta às normas da CVM relacionadas à divulgação de informações pelas companhias.
Na asset, o planejamento para este ano envolve apoiar os investidores institucionais no cumprimento das novas exigências regulatórias. “É fundamental deixar claras as métricas utilizadas para evitar qualquer tipo de dúvida”, afirma.
Além disso, será necessário um esforço adicional de educação e transparência. A taxonomia sustentável é uma métrica relevante, mas será preciso compreender os objetivos do investidor para definir os produtos adequados. Ela tem papel importante, por exemplo, nas linhas de crédito governamentais, mas sua implementação depende fortemente da qualidade das informações divulgadas pelas próprias companhias.
“Na União Europeia, seguir integralmente a taxonomia não é obrigatório para os fundos, em parte por conta da limitação de dados. Aqui, a discussão envolveu toda a indústria, mas o Conselho Monetário Nacional, a Previc e a Susep ainda precisarão publicar normas complementares, e os cadernos técnicos são densos”, detalha. O desafio agora é entender o grau de alinhamento das companhias e realizar testes para desenvolver metodologias de aderência que orientem o reporte de dados.
“Essa migração tende a ocorrer de forma mais natural nas EFPC, e já observamos uma busca maior por indicadores, mais do que por produtos específicos. A demanda existe, mas não é por fundos IS e sim por fundos que integram ESG”, avalia Formigoni.
A gestora realiza integração ESG na análise e na gestão de 100% das carteiras de renda fixa e crédito privado. Além disso, mantém produtos específicos ESG. Segundo a classificação da Anbima, a casa tem R$ 1,6 bilhão em fundos IS e de integração, além de US$ 400 milhões em um fundo offshore distribuído na União Europeia.
Atualmente, apenas 10% do investimento ESG sob gestão está em renda variável, sendo o restante concentrado no mercado de crédito, informa João Júlio Matos, gestor de ações. “A análise de sustentabilidade faz parte de uma avaliação mais ampla do risco global”, explica.

Novo produto ESG – Ao lançar seu primeiro fundo de investimentos sustentáveis, a Porto Asset buscou refletir uma diretriz estratégica do grupo Porto, voltada à ampliação da oferta de produtos ESG, observa Ricardo Espíndola, superintendente de crédito privado e gestor do fundo Porto Pitangueira. Com R$ 38 bilhões sob gestão, dos quais R$ 10 bilhões em crédito privado, a casa lançou o fundo no final de 2025, em parceria com um fundo de pensão e com foco em investidores institucionais. Recentemente, também se tornou signatária do PRI e deverá responder aos questionários já no próximo ciclo.
“O processo começou em 2020, quando passamos a incorporar esses princípios à política de crédito. Em 2023, decidimos avançar, reforçando a equipe e já pensando no lançamento de um produto”, relata Espíndola. Em 2025, a asset contratou uma analista dedicada e uma consultoria externa para desenvolver uma modelagem proprietária, assegurando o mapeamento adequado dos riscos ESG.
A decisão de estruturar o primeiro veículo ESG com foco em fundos de pensão decorreu de um estudo que indicava o aumento da demanda desse público. “A atuação do regulador, com a Resolução Previc 26, contribui para esse movimento e reforça a discussão sobre sustentabilidade”, afirma.
A adoção da dupla materialidade – que considera tanto os riscos financeiros quanto os impactos das empresas sobre o meio ambiente e a sociedade – tende a ampliar a transparência do mercado. “O conceito está alinhado às regulações da Previc e da CVM, que exigem das companhias os padrões IFRS 1 e IFRS 2, permitindo avaliar melhor os impactos das mudanças climáticas e de outros fatores ESG”, afirma Brenda Lee Prado, analista de crédito responsável pela área ASG.
Ela ressalta que a asset tem adotado um cuidado especial na análise de governança. “Há uma correlação muito forte entre governança e risco financeiro. Por isso, a análise de crédito precisa ser rigorosa e ancorada também nos critérios de governança”, conclui.