Fundos de pensão de Nova York podem excluir BlackRock da gestão

O controlador da prefeitura de Nova York, Brad Lander, recomendou que os fundos de pensão da cidade abram nova concorrência para os US$ 42,3 bilhões (R$ 227 bilhões) hoje geridos pela BlackRock. A alegação de Lander, segundo reportagem da agência Reuters, é que a gestora teria reduzido a prioridade dada às questões climáticas em sua estratégia de investimento e de engajamento com empresas.

Com patrimônio total de US$ 294,6 bilhões (R$ 1,58 trilhão), os cinco fundos de pensão da cidade (NYCers, dos funcionários públicos; TRS, dos professores; Police, dos policiais; Fires, dos bombeiros; e Bers, dos servidores da área de educação) trabalham com 49 gestores de recursos, dos quais 46 já atendem às expectativas de atuação em prol da descarbonização.

Caberá aos conselhos desses fundos — que administram a aposentadoria de cerca de 800 mil servidores e ex-servidores municipais — decidir se seguem ou não a orientação de Lander. Mas, tradicionalmente, as recomendações do controlador costumam ser seguidas.

O cargo de controlador, nos EUA, é um contrapeso ao poder dos prefeitos e tem as funções de auditar contas do governo, fiscalizar contratos e despesas públicas e supervisionar os fundos de pensão municipais.

O mandato de Lander termina em 31 de dezembro, e a recomendação, feita em memorando de 25 de novembro a conselheiros dos fundos de pensão, tende a colocar o prefeito eleito, Zohran Mamdani, no centro do debate quando assumir o cargo daqui a poucas semanas.

Lander critica o que chama de “abordagem restritiva de engajamento” com aproximadamente 2.800 empresas americanas nas quais a gestora detém mais de 5% do capital. Segundo ele, após pressão do governo Donald Trump a BlackRock anunciou em fevereiro que não usaria mais suas conversas com executivos de empresas para tentar influenciar diretamente na condução dos negócios dessas empresas. Para Lander, isso representa “uma abdicação do dever fiduciário” e impede a gestora de atender às expectativas de investimento responsável, incluindo a cobrança por transparência em emissões de carbono.

Um representante de Mark Levine, sucessor eleito de Lander para o cargo de controlador, afirmou que irá analisar as propostas. Lander, que se tornou aliado de Mamdani na campanha eleitoral e admite “considerar seriamente” uma candidatura ao Congresso em 2026, afirma que a posição em relação à BlackRock não tem relação com seus planos políticos. Ele sugere manter a gestora apenas em mandatos de índices de ações fora dos EUA e alguns outros produtos.

Em carta enviada a Lander e divulgada por um porta-voz da BlackRock, Armando Senra, responsável pela área institucional das Américas, rebate as críticas e afirma que acusar a gestora de abandonar seu dever fiduciário e expor as pensões ao risco climático é “mais um exemplo da politização dos fundos de pensão públicos, o que prejudica a segurança da aposentadoria dos trabalhadores de Nova York”. Senra diz ainda que, se os fundos levarem adiante a recomendação e abrirem nova concorrência, a BlackRock estará pronta para demonstrar “a amplitude e profundidade” de suas capacidades e o valor entregue à cidade, ressaltando que a empresa foi fundada em Nova York e “se orgulha de chamar a cidade de lar”.

Além da BlackRock, Lander propôs encerrar contratos também com a Fidelity Investments e a PanAgora, alegando que essas casas também não pressionam suficientemente as empresas em temas ambientais e de descarbonização. Ambas não comentaram.

Dois lados – O movimento ocorre em meio a uma disputa nacional sobre o uso de critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) na gestão de recursos de fundos de pensão. Diversos fundos ligados aos republicanos — sobretudo de Estados produtores de combustíveis fósseis — já retiraram dinheiro de BlackRock e de outras gestoras, acusando-as de priorizar agendas climáticas e sociais em detrimento do retorno financeiro.

Se os conselhos dos fundos de Nova York endossarem a recomendação de Lander, será a primeira grande rede de fundos de pensão dos EUA, do campo democrata, a tomar medida semelhante mas em sentido inverso: punindo gestoras que, na avaliação do controlador, não fazem o suficiente para pressionar empresas a reduzir emissões.