Otimização da grade | Com redução da demanda dos investidores e P...

Edição 279

 

O atual patamar da Selic tem criado nos últimos meses uma disputa desequilibrada, com os rendimentos muito mais favoráveis da renda fixa frente aos da renda variável. Com isso algumas assets começam a esboçar um movimento de redução de seus portfólios, uma vez que o patrimônio de determinados veículos não é suficiente para mantê-los operacionalmente.
A XP Gestão é uma das assets do mercado brasileiro que tem promovido uma otimização de sua grade de produtos desde o início do ano, após a troca no comando da casa. Quando o grupo decidiu transferir o time de gestão do Rio de Janeiro para São Paulo, o então CEO, Patrick O’ Grady, optou por não seguir na empresa, e o posto foi assumido pelo gestor de renda variável, Marcos Peixoto. “Um excesso de oferta de fundos atrapalha o foco. Estávamos perdendo o foco com coisas pequenas quando deveríamos focar em uma quantidade menor, só que com volumes maiores”, afirma Peixoto.
O novo CEO da asset explica que nos últimos dois anos a XP lançou diversos produtos, tentou inovar, e alguns não deram muito certo, com veículos que ficaram com um PL muito pequeno. Entre os fundos recentemente encerrados pela gestora da XP está o fundo de fundos que investia no exterior via assets globais voltado para fundações, que não alcançou um PL relevante para que fosse mantido operacionalmente. A XP chegou a promover uma viagem para Nova York no início de 2015 com oito fundações para alavancar o produto, mas a empreitada não trouxe o retorno esperado. “Não víamos perspectiva de captação para esse fundo no curto ou médio prazo. Era um fundo que sugava muito tempo, com viagens no exterior, road shows, e não valeu a pena pelo retorno”.
O fundo que investe em BDRs também foi encerrado, e a XP mantém conversas com a AllianceBerstein para lançar um novo fundo de recibos de companhias estrangeiras que seja gerido pela asset global.Também foram encerrados um fundo que investia em assets em fase inicial, uma espécie de aceleradora de gestoras, e um outro que alocava em bonds de empresas internacionais. “Ao invés de operar créditos de empresas de fora, pensamos em um novo fundo que vai comprar créditos de empresas brasileiras que emitem no exterior. Vamos aproveitar o time dentro de casa que já olha para Brasil”.
A XP Gestão não enxerga um grande apetite dos investidores por fundos de ações no momento, e prepara o lançamento de um novo fundo multimercado macro. A parte de renda variável ficará à cargo do próprio Marcos Peixoto, que antes da XP trabalhou com a gestão de renda variável nos multimercados da Itaú Asset, junto com o outro gestor de ações da casa, João Braga. Para a parte de moedas, a asset está selecionando um novo gestor; e para o segmento de renda fixa, ela acaba de contratar o gestor Julio Fernandes, que esteve nos últimos cinco anos na Gap Asset, após passagens pela Itaú Asset e BBM.

Unificação de fundos – No fim do ano passado, a asset do BNP Paribas optou por unificar em apenas um veículo uma estratégia de renda variável que era oferecida através de dois fundos diferentes, um voltado para institucionais, e outro para pessoa física. “Otimizamos o veículo e apostamos a ficha naquele que é voltado para os institucionais. Na renda variável faz sentido esse processo de otimização dos veículos, mas sem abrir mão de outras estratégias que podem ser favorecidas com uma recuperação do mercado”, comenta Luiz Felipe Santos, head de produtos e ‘client services’ da BNP Paribas Asset Management.
O executivo explica que a decisão foi tomada por conta da demanda dos investidores pessoa física por renda variável, que nos últimos dois anos tem sido muito baixa. “O investidor pessoa fisica tem um viés muito grande para a renda fixa, e não consegue ter um horizonte de longo prazo”. Santos comenta que uma asset como a do BNP Paribas que trabalha com diferentes públicos-alvo precisa manter um constante processo de racionalização e otimização da plataforma de produtos. Ele afirma que a reação dos investidores após a otimização do veículo de renda variável foi positiva, uma vez que o veículo para institucionais, que ainda tinha um tamanho menor do que o voltado para o varejo, passa a ser oferecido de maneira mais intensa para as fundações agora com um PL mais relevante.
Sobre a demanda dos investidores pessoa física, Santos lembra que a Bolsa realizou há alguns anos alguns programas para trazer mais pessoas físicas para o mercado, mas não teve muito sucesso, recorda o especialista, ao lembrar que as iniciativas coincidiram com o início da crise de 2008. “Uma coisa levou à outra”. De acordo com o boletim da Anbima de janeiro de 2016, o PL do mercado de ações, que em dezembro de 2011 somava R$ 9,4 bilhões, tinha caído para R$ 4,7 bilhões em dezembro de 2015.
Pelos dados do Top Asset, a gestora do BNP Paribas encerrou dezembro de 2015 com R$ 4,7 bilhões em ações de companhias brasileiras em carteira, uma queda de 9,25% nos últimos doze meses. “Para estratégias menores, que ficam com um patrimônio mais baixo, sempre vale a pena uma avaliação constante”, pontua Santos. O fundo que foi unificado é o Action Long Biased, que está atualmente com cerca de R$ 86 milhões investidos, ante R$ 70 milhões quando houve a decisão de fechar um dos veículos.
O head de produtos da BNP Paribas Asset acrescenta que também tem notado recentemente uma demanda muito pequena por fundos de dividendos. “Seguimos monitorando a estratégia e a viabilidade financeira do veículo”. Com a falta de perspectiva para uma recuperação da bolsa, ao menos no curto prazo, a asset do BNP Paribas prepara para o segundo semestre o lançamento de um fundo multimercado, que terá o foco na renda fixa, e que contou inclusive com a vinda de um profissional do grupo de Nova York, João Uchoa Borges Filho. “Com o nível de juros que existe no nosso mercado, não tem sentido ficar de fora, e por isso resolvemos trazer um gestor com expertise diferenciada”. A casa também deve colocar no mercado nos próximos meses seu fundo de fundos na área de private equity, primeiro veículo estruturado lançado após a contratação de Luiz Eugênio Figueiredo, ex-Rio Bravo Investimentos.

Fundos exclusivos – O profissional da BNP Paribas Asset ressalta que não é possível apontar um “número mágico” de um PL mínimo que um fundo precisa ter para que siga viável. “Isso é muito particular, principalmente no caso dos institucionais, que costumam trabalhar via fundos exclusivos. Não existe um ‘breaking even’ que faça sentido”, pondera Santos, que aponta a grande variação que existe nos custos legais e regulatórios e para a manutenção entre determinados veículo.
Eduardo Levy, gestor da Rio Bravo, destaca que a posição dos institucionais no mercado doméstico de renda variável está nas mínimas históricas, o que inevitavelmente gera impacto para os veículos que seguem as estratégias em bolsa. “Muitas vezes criamos para os institucionais fundos exclusivos que seguem um determinado mandato. Com a redução de posições nos últimos anos, não há dúvida que os fundos exclusivos sofrem, mas a estratégia continua funcionando”, pondera o executivo, que prefere não citar eventuais fechamentos recentes de veículos exclusivos voltados para institucionais. Segundo o Top Asset, a Rio Bravo teve uma queda de 77,12% em sua carteira de ações brasileiras nos doze meses encerrados em dezembro passado, para R$ 112,8 milhões.
Levy tem notado entre os institucionais atendidos na Rio Bravo um aumento de procura por fundos exclusivos de renda fixa, voltados essencialmente para títulos públicos, ou em alguns casos com exposição ao segmento de crédito privado. “A gente segue achando que colocar tudo em títulos públicos não é a melhor forma de proteger a carteira, deve existir uma diversificação, mas os institucionais vem reduzindo suas posições”, afirma o gestor.