Edição 265
Em uma iniciativa para estimular a entrada de pequenas e médias empresas no mercado de acesso ao mercado de capitais brasileiro, hoje representado pelo Bovespa Mais, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) selecionou, por meio de chamada pública, dois gestores para dois fundos de investimento voltados a esse segmento.
Os dois selecionados entre 13 gestores que participaram da chamada pública foram a asset do Brasil Plural e a gestora independente de recursos Leblon Equities. O patrimônio comprometido dos dois fundos, somados, deverá ser de aproximadamente R$ 600 milhões, e a participação do BNDES, feita por meio do BNDESPar, em cada fundo será de até 30%, com um limite de R$ 90 milhões em cada fundo.
De acordo com Fernando Mantese, gerente da área de capital empreendedor do BNDES, a ideia inicial era a seleção de apenas um gestor para um fundo, mas devido à quantidade e qualidade das propostas, com profundidade e coerência, e a complementaridade dos dois gestores, a diretoria decidiu apoiar dois fundos.
“O Brasil Plural tem um perfil que pode explorar a estrutura e experiência em mercado de capitais e identificar empresas mais maduras. A Leblon Equities tem convergência com esses fatores, mas tem perfil de private equity ativista nas empresas, podendo participar da gestão das empresas para preparação das mesmas com todos os requisitos e torná-las bem atrativas ao mercado de capitais”, declara Mantese.
A ideia será investir em empresas que faturam entre R$ 50 milhões e R$ 400 milhões por ano. A expectativa é iniciar as operações no segundo semestre de 2015, quando as captações já devem estar fechadas. “Agora passaremos pela análise jurídica e gerencial do que foi proposto pelos vencedores, estruturação do regulamento e captação”, diz Mantese.
O executivo destaca que o gestor terá o papel de buscar investidores, mas que no próprio plano enviado para concorrência, eles já iniciaram conversas. “Entre eles estão investidores institucionais. Acreditamos que tem uma boa perspectiva para fundos de pensão e family offices, que não possuem liquidez imediata, pois os fundos durarão sete ou oito anos, mas buscam um retorno interessante, pois se investirá em empresas de grande potencial voltadas à oferta no mercado de capitais”, ressalta.
Em seu projeto, a Leblon Equities planeja um fundo que tenha os setores de varejo, consumo e serviços como alvos dos investimentos, que são setores que a gestora já possui certa experiência dentro de seus fundos de private equity e de investimentos em empresas listadas. “A ideia do fundo é ter de seis a dez empresas pequenas e médias e acreditamos que há uma oportunidade grande de empreendedores e empresas com esse perfil querendo investimentos para crescer”, diz Pedro Rudge, sócio da Leblon Equities.
A gestora vai, a partir de agora, formalizar as intenções de investimento e captar o restante para um fundo que deve totalizar R$ 200 milhões no primeiro fechamento, programado para o primeiro trimestre de 2015. “Temos investidores que indicaram o desejo de investir, entre eles fundos de pensão e gestores de fundos de fundos”, diz Rudge. A própria Leblon Equities já entrou com R$ 15 milhões no fundo.
“A gente já vem discutindo esse tipo de investimento, como desenvolver pequenas e médias empresas, há quase dois anos. Já estudamos e pensamos em como permitir o acesso de pequenas e médias empresas ao mercado de capitais, pois temos 350 empresas listadas em bolsa e milhares que poderiam ter acesso ao dinheiro de investidores e não têm”, salienta Rudge. “Quanto mais empresas de diversos setores estiverem listadas em bolsa, melhor para o investidor, que poderá diversificar patrimônio e escolher setores potenciais de crescimento”, complementa.
Participações minoritárias – A Leblon Equities já possui investimentos em empresas que entraram no mercado de acesso recentemente, como a BR Home Centers, varejista de material de construção, a Mills, empresa de produtos e serviços de engenharia, a rede de franquias de lojas de sapatos City Shoes, e a Tamboro, empresa de software educacional. “Nossa preferência é por participações minoritárias. Queremos entre 20% e 30% das empresas, para ajudá-las a crescer a se estruturar para abrir capital e receber novos investidores”, complementa Rudge.
Rodolfo Riechert, presidente do Brasil Plural, destaca que a ideia específica é trabalhar a capacidade da empresa se mostrar no mercado. “A vantagem é que existe uma valorização bem importante em entrar antes da oferta pública inicial (IPO) da empresa, pois o investidor dará dinheiro para ela fazer uma aquisição, para investir. E quando ela entrar em mercado, será uma empresa de small ou midcap, que normalmente tem retornos maiores e menos risco”, explica.
O que motivou o Brasil Plural a disputar esse fundo foi acreditar que existe um público investidor disposto a comprar ativos de boa qualidade em ofertas públicas no Brasil. “Não defendemos que uma oferta precisa ter x bilhões para ter demanda. Esse tipo de empresa vai interessar a todos os investidores e ampliará o escopo da operação”, opina Riechert.
O executivo ressalta que o foco são family offices e investidores institucionais, e que essa é uma boa oportunidade para quem já investe em operações de private equity, pois entrará no fundo sabendo que o investimento não será tão longo quanto dos fundos tradicionais. “Não queremos ficar ganhando sobre a taxa, queremos fazer a saída rápida e ter o ganho do IPO, desenvolver o mercado”. O fundo do Brasil Plural deve ter um patrimônio de R$ 300 milhões, sendo que um percentual não revelado será proveniente do próprio banco.
Riechert diz que ainda não há uma preocupação com setores específicos para se investir no momento. “Vamos procurar ativos e investir nos que consideramos mais interessantes. Agora, estamos conversando com investidores, sentindo a demanda, mas ainda sem esforço de captação”, explica. “Nossa tese é que o mercado de acesso não deslanchou, pois não existe um grupo de investidores cativo a esse mercado. Com nosso fundo, já conseguiremos dar uma boa ancorada em ofertas”, salienta o executivo.
Investimentos – A iniciativa do BNDES faz parte do projeto lançado pelo banco de fomento no início do ano, que previa investimentos de R$ 2 bilhões em 12 fundos de investimento em participações (Fips) multissetoriais e mais R$ 1 bilhão diretamente em ofertas públicas iniciais de empresas no Bovespa Mais, além da seleção do gestor para o Fip voltado ao mercado de acesso, que resultou na escolha pelo Brasil Plural e a Leblon Equities. Por conta da seleção dos dois gestores em vez de um, o orçamento do banco ficou um pouco maior.
“Nosso plano é investir um pouco mais de R$ 2 bilhões, até o ano que vem, em fundos. Para aumentar o fomento do mercado de acesso, temos também um programa em que a gente pode participar diretamente com até R$ 1 bilhão em empresas que já vão fazer as ofertas públicas no mercado de acesso da bolsa, atuando como investidor-âncora e concedendo garantia firme de subscrição em até 20% da oferta”, explica Mantese.
Para os Fips multissetoriais, o BNDES já selecionou, por meio de chamada pública, os primeiros gestores, e ainda realizará novas chamadas para esse programa. Também está em curso uma chamada relativa ao Criatec III, fundo de capital semente que investe em empresas inovadoras.
BNDES seleciona cinco gestores para fundos multissetoriais
Como parte de seu programa de fortalecimento do mercado de capitais, o BNDES realizou sua primeira chamada pública multissetorial e selecionou cinco gestores para seleção de gestores para fundos de investimento em participação (Fips) com atuação, preferencialmente, em setores de infraestrutura, base tecnológica, educação, saúde, economia criativa ou fundo de fundos. São eles Bozano Investimentos, Confrapar, First, NEO Investimentos e P2 Gestão de Recursos.
Os gestores foram selecionados entre as 30 propostas de fundos de investimentos apresentadas, incluindo venture capital, private equity, fundos voltados a infraestrutura e fundos de fundos. Entre os critérios para seleção das melhores propostas estão a captação de recursos junto a investidores, histórico do gestor, qualidade da equipe, qualidade da proposta, governança e aderência em relação ao portfólio da BNDESPar. Os setores de atuação e os produtos preferenciais para essa primeira chamada foram infraestrutura, base tecnológica, educação, saúde, economia criativa e fundo de fundos.
O programa de chamadas multissetoriais deve resultar em investimentos de até R$ 2 bilhões em fundos efetuados pela BNDESPar nos próximos dois anos. Nessa primeira chamada, o patrimônio comprometido pela BNDESPar nos cinco fundos, somados, deverá ser de aproximadamente R$ 470 milhões, e sua participação em cada fundo será de até 40% para fundos de venture capital e 20% para fundos de private equity.
Os fundos de venture capital deverão investir, predominantemente, em empresas com faturamento de até R$ 150 milhões, enquanto os de private equity investem principalmente em empresas com faturamento superior a R$ 150 milhões. Ao todo, o patrimônio comprometido pela BNDESPar nos cinco fundos será de aproximadamente R$ 500 milhões.
O investimento da BNDESPar nesses fundos deve ser concretizado nos próximos meses, já que os ainda passarão por aprovação em processo de avaliação gerencial e jurídica e, além dos recursos da BNDESPar, devem captar aproximadamente R$ 4,5 bilhões de outros investidores.