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Lucro no mercado virtual

Edição 294

Operações com moedas digitais, que iniciam milhares de jovens em investimentos pela internet, já atraem o interesse de grandes bancos

O mercado de moedas digitais, entre as quais o Bitcoin é a mais famosa, está se desenvolvendo há anos entre jovens familiarizados com operações de internet. Alguns já ganharam milhões com esse mercado, garante João Paulo Oliveira, criador e principal executivo da Foxbit, uma exchange fundada em 2014, em São Paulo, e que hoje é a maior operadora de moedas digitais no Brasil. Segundo Oliveira, existem hoje 10 exchanges no País, mas três delas concentram 90% das operações. O Bitcoin, a principal moeda digital, movimentará cerca de R$ 2 bilhões neste ano, cerca de 55% através da Foxbit. Veja a seguir a entrevista dada por Oliveira à Investidor Institucional, na qual ele explica o que é, como funciona e quais as perspectivas desse segmento:

Investidor InstitucionalHoje as pessoas falam muito no Bitcoin, mas existem outras várias moedas digitais. Quantas vocês negociam?
João Paulo Oliveira – A Fox Bit hoje só negocia Bitcoin porque é a principal moeda e acaba servindo como ponte de acesso a outras moedas digitais. A gente tem planos de integrar outras moedas, mas o Bitcoin hoje é a principal ponte de acesso ao que chamamos de crypto economy, que é a economia que está se formando em cima de moedas digitais.

IIQuantas moedas digitais existem nessa cryptoeconomy?
JPO – Centenas. Alguma ainda sem um valor claro, outras têm um valor tecnológico interessante e já apresentam um valor claro ao mercado. Mas a Bitcoin é a principal, com aproximadamente 50% do total do mercado de cryptocurrencies.

IIQuais são as outras?
JPO – As três principais moedas digitais são a Bitcoin, que é a maior de todas, com marketcap de cerca de 50 bilhões de dólares; a segunda maior é a Ethereum, com um marketcap de aproximadamente 21 bilhões de dólares; e a terceira mais conhecida chama-se Ripple, que é um projeto financiado por instituições financeiras globais, como o Santander por exemplo que é um dos maiores financiadores, com um marketcap de cerca de 6 bilhões de dólares.

IIQuais são os principais mercados de Bitcoins no mundo?
JPO – O Japão, que tem cerca de 30% a 40% do total do mercado, os Estados Unidos também são bem relevantes, o Brasil ocupa apenas 0,5% do mercado global hoje.

IIQuanto o Brasil movimenta nesse mercado de Bitcoins?
JPO – O mercado de negociação de moedas digitais no Brasil já ultrapassou o mercado de ouro, por exemplo, e deve chegar a R$ 2 bilhões negociados pelas principais exchanges esse ano. Isso só de Bitcoins, pois não tenho os números das outras moedas digitais.

IIO que você consegue comprar com o Bitcoin?
JPO – Por enquanto pouca coisa ainda, mas mais importante é que o Bitcoin está se consolidado como uma forma de investimento. Quem compra Bitcoin quer proteger sua riqueza contra o risco e esperando valorização do ativo. É cada vez mais comum os adolescentes querendo comprar Bitcoin para adquirir jogos no exterior, por não ter cartão de crédito ou mesmo tendo para não pagar IOF, taxa, spread comercial etc.

IIA tendência é que aumente sua função de compra?
JPO – Não necessariamente, mas pode acontecer. O mais importante, como eu disse, é que o Bitcoin é visto cada vez mais como investimento, um ativo financeiro descentralizado, limitado e sem risco organizacional nenhum. É um ativo digital que posso mandar para qualquer lugar do mundo, que tem um valor de mercado e sem risco nenhum de intermediários. Eu não tenho risco do governo, do banco, do custo diante do dinheiro. Isso é um paradigma totalmente novo.

IIComo e quem criou o Bitcoin?
JPO – Foi criado pelo Satoshi Nakamoto, que em 2008 soltou um paper que deu origem ao Bitcoin e em 2009 o protocolo entrou em operação. O Nakamoto, que evidentemente usou um nome falso para isso e hoje nunca foi identificado, foi quem criou o conceito de blockchain e definiu algumas regras. Uma delas é que os Bitcoins são minerados em blocos e cada participante da rede ganha novos Bitcoins gerados. Outra é que a rede emitisse 50 Bitcoin a cada dez minutos e esse valor fosse caindo a cada quatro anos, sendo 25 Bitcoins depois de quatro anos, 12,5 depois de mais quatro e assim por diante. Então temos um ativo financeiro deflacionário, descentralizado, cujas regras não podem ser mudadas ou criar inflação. Pra isso precisa ser estabelecido um consenso de toda a rede, então há um jogo de interesse. Esse limite de emissão, de iniciar com emissão de 50 Bitcoins a cada dez minutos estabelece um teto de um máximo de 21 milhões de Bitcoins a ser atingido até 2040. Então é um ativo limitado, finito.

IINa prática, como funciona o Bitcoin e as outras moedas digitais?
JPO – É um paradigma totalmente diferente do sistema financeiro tradicional. A primeira coisa, que é mais difícil de entender, é que pela primeira vez tenho um ativo descentralizado. Não tenho um emissor central, que controle, que possa criar ou mandar nas regras de Bitcoins. Eu tenho um protocolo de internet, como um IP, tenho regras definidas, e pessoas que fazem parte desse sistema. Eu não tenho ninguém que possa mandar, controlar ou dizer como o Bitcoin funciona.

IIQuem garante o ativo?
JPO – O blockchain, que é a tecnologia por trás. Tem um conjunto de técnicas avançadas de criptografia que garante que só eu sou dono daquele dinheiro. Se eu morrer ninguém vai poder utilizar aquele dinheiro, se eu fizer uma transação errada ninguém pode me devolver aquele dinheiro. É um ativo que está totalmente no meu controle.

IIMas as pessoas comuns conseguem ver, ou sentir, essa garantia? Ela não é meio abstrata?
JPO – Para mim é mais fácil ver, pois sou uma pessoa que já está dentro desse paradigma, que é o paradigma de blockchain, o paradigma de crypto asset. Mas hoje vemos adolescentes de 15 anos que já entenderam esses conceitos. Diferente de qualquer outro ativo, seja uma casa, uma conta bancária, um carro, que precisa sempre de algo ou de alguém garantindo que é seu, no Bitcoin essa garantia se dá por meio de um software que chamamos de chave privada, uma senha segura unicamente sua e se você tiver aquela senha aquele valor é seu.

IIOs hackers não conseguem decifrar a senha?
JPO – Se você for hackeado você perdeu seu dinheiro, mas naturalmente estamos falando de criptografia de chave pública extremamente segura. Quando você acessa seu banco, por exemplo, os sistemas que se comunicam usam esse mesmo tipo de criptografia. Se esse tipo de criptografia se mostra vulnerável, toda a internet como conhecemos hoje para de funcionar.

IIJá houve casos de contas hackeadas?
JPO – Sim, já houve, mas quando falamos de criptomoedas ou de qualquer contexto de transformação digital, que é um caminho sem volta para a economia, segurança digital é prioridade número zero. Com Bitcoin, com cryptocurrencies, isso só se torna ainda mais importante.

IIVocê disse que o Brasil opera R$ 2 bilhões em Bitcoins. Quem opera isso?
JPO – A grande maioria são traders operando na pessoa física, individualmente. São pessoas que estão operando o mercado e aproveitando a volatilidade de preço. Uma parte significativa desse mercado é de pessoas que acreditam na valorização e na consolidação do Bitcoin como protocolo.

IIElas estão ganhando dinheiro?
JPO – Estão, pois a Bitcoin saiu de uma fração de centavos de dólar para 3 mil dólares em seis anos. Hoje, como o preço caiu um pouco, um Bitcoin está sendo negociado a R$ 8,6 mil na Foxbit, que equivale a 2,6 mil dólares.

IIHá bolhas de Bitcoins?
JPO – Sim, a primeira foi em 2011, quando o Bitcoin chegou a ser negociado a 32 dólares e depois caiu para 5 dólares. A segunda em 2012, quando chegou a ser negociado a 130 dólares e caiu de novo para 20 dólares. Depois veio a terceira bolha, que foi a maior até então, quando o Bitcoin chegou a ser negociado a 1.242 dólares em 2013 e depois caiu em 2014 para cerca de 200 dólares. Depois se recuperou, bateu 3 mil dólares em junho de 2017 e agora está em cerca de 2,6 mil dólares.

IIEstamos em uma bolha?
JPO – Eu acredito que Bitcoin ainda vai subir, estou extremamente comprado com um portfólio pessoal meu, mas o mercado financeiro é volátil, tem efeito manada, pode cair ou subir. Em longo prazo, a tecnologia se mostrando segura e o protocolo se mostrando sólido, eu acho que o Bitcoin vai bater 10 mil dólares, 100 mil dólares. Mas existem muitos riscos.

IIÉ um mercado especulativo?
JPO – O Bitcoin é um ativo extremamente especulativo. Mas você especula com a capacidade dessa tecnologia resolver alguns problemas inéditos no mercado financeiro. Por exemplo, se eu quiser mandar dinheiro para os Estados Unidos, 100 dólares via Bitcoin, teria um custo de apenas 50 centavos de dólar, enquanto via cartão de credito, ou via banco, seria de 50 dólares. Então, a tecnologia do Bitcoin permite coisas que até então eram inéditas, como enviar dinheiro sem um intermediário e de forma quase tão barato quanto enviar e-mail. Isso, por si só, já tem valor e o mercado especula com a possibilidade desse protocolo crescer e virar um padrão. E como esse protocolo é finito, limitado a 21 milhões de unidades, existem expectativas de investidores de que no futuro o marketcap seja tão grande ou maior que o do ouro.

IIComo você avalia essas perspectivas?
JPO – Do meu ponto de vista, Bitcoin e algumas outras cryptocurrencies podem ter no futuro um papel semelhante ao da Internet ou do IP como protocolo. Só que diferente de protocolos anteriores, o Bitcoin é limitado. Quem define isso? A regra do protocolo. Quem pode mudar essa regra? Ninguém, só se todo mundo que usa Bitcoin ao mesmo tempo concordar com isso.

IIQuer dizer, a força do Bitcoin está na descentralização?
JPO – Claro, pois como é um sistema financeiro descentralizado ninguém pode mudar a regra de funcionamento. O Bitcoin criou um conceito de consenso centralizado que funciona através de uma tecnologia chamada blockchain, que hoje é considerada a maior inovação desde a internet. Basicamente ela garante que todos os participantes da rede tenham acesso as cópias das transações locais, sendo possível verificar as transações em conjunto. Hoje, se você logar na rede Bitcoin terá 6 mil computadores conectados e todos eles vão ter cópias de todas as transações, podendo consultar todas ao mesmo tempo.

IIQue cenários influenciam a cotação de Bitcoins?
JPO – Diversos, mas o principal é o risco-governo. Cada vez mais os investidores veem Bitcoin como porto seguro. Por exemplo, houve uma grande crise econômica política na Índia ano passado, o governo proibiu as pessoas de circularem com moeda em espécie, então o mercado correu para Bitcoin e o preço subiu muito. O governo da Venezuela tem apresentado problemas semelhantes, e a demanda por Bitcoin lá é grande e eleva os preços. A Grécia também, quando houve a potencial saída da Grécia da zona do euro o governo proibiu os gregos de sacarem dinheiro e o Bitcoin subiu em todo o mundo. Nos Estados Unidos, com a eleição de Donald Trump o preço do Bitcoin subiu porque o mercado entendeu que ele iria perseguir os mexicanos, os imigrantes ilegais, e como esses imigrantes estariam proibidos de operar no sistema financeiro legal eles iriam utilizar mais o Bitcoins para enviar pagamentos para suas famílias.

II A taxa de câmbio, ou outros fatores macros, influenciam o Bitcoin?
JPO – O câmbio sim, quando o Bitcoin é negociado no Brasil. Se o dólar sobe o Bitcoin também sobe, pois é negociado em dólar. Outras métricas macroeconômicas ainda não, pois ele quase não é usado para lastrear transações de empresas. Mas quando houver regulamentação e as empresas começarem a usar, isso pode ocorrer.

IIÉ possível criar fundos de investimento de Bitcoins?
JPO – Ainda não há nenhum, mas é cada vez maior a procura de gestores querendo estruturar alguma operação com Bitcoins. Nos Estados Unidos, esse ano a SEC rejeitou uma proposta para aprovar um ETF de Bitcoin dizendo que não poderia controlar o mercado e garantir que o preço é justo. Mas lá existe uma empresa, Bitcoin Investment Trust, que permite que investidores institucionais coloquem dinheiro num tipo de fundo em Bitcoin, mas o interessante é que a cota desse fundo é negociada a 50% acima do preço do Bitcoin pois é o único veículo que o investidor institucional tem para investir em Bitcoin.

IIExiste algum índice de Bitcoin?
JPO – A bolsa de Nova York tem uma cotação de Bitcoin dela. Ela investiu na empresa de Bitcoins Coinbase e pega os preços através dessa empresa.

IIQue países já regulamentaram Bitcoin?
JPO – O Japão foi o primeiro, há poucos meses, em abril. O governo japonês regulamentou cryptocurrencies como uma forma legal de pagamento. Então é possível pagar inclusive imposto com Bitcoin. Os três maiores bancos japoneses hoje investem em empresas de Bitcoin e tem um cenário crescente de adoção da tecnologia e um grande acréscimo de investidores.

II Há alguma proposta para regulamentar as moedas digitais no Brasil?
JPO – Tem um projeto de lei do deputado Aureo (SD-RJ), de número 2303, que regulamenta o uso das moedas digitais juntamente com pontos de fidelização. No projeto de lei aparecem essas duas coisas juntas, como se fossem coisas parecidas, mas elas são totalmente diferentes.

IIComo as grandes instituições brasileiras estão olhando esse mercado?
JPO – Temos sido procurados por várias delas, que querem investir em Bitcoin na tesouraria do banco para começar a entender e depois oferecer para o investidor. Os bancos e grandes instituições financeira estão estudando essa plataforma para automação de processo de BackOffice. Inclusive entre bancos. Computadores ao redor do mundo já recebem pagamento através dessa moeda. Elas estão atentas a essas mudanças.


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