Busca
    

Empresas fechadas na carteira

Edição 294

Anbima defende que fundações invistam em empresas de capital fechado, mas falta de transparência e de liquidez são questões a serem resolvidas

A Anbima está tentando sensibilizar a equipe econômica do governo sobre a importância de permitir investimentos dos fundos de pensão em títulos de empresas de capital fechado, opção que é vedada pela Resolução 3.792 atualmente. “Essa restrição imposta pela legislação, além de limitar o crescimento do mercado de uma maneira geral, também dificulta a diversificação do portfólio dos próprios institucionais”, afirma José Eduardo Laloni, diretor da Anbima e vice-presidente do Banco ABC Brasil.
De acordo com Laloni, não é o fato da empresa ser de capital aberto ou fechado que irá definir se determinada emissão terá sucesso ou irá apresentar problemas à frente. “O que entendemos ser importante é que, caso uma empresa de capital fechado venha a mercado, ela se comprometa a ter transparência e a prestar todas as informações necessárias aos investidores”.
O diretor da Anbima cita como exemplo o setor de infraestrutura, onde foram lançadas diversas SPEs (Sociedades de Propósito Específico) ligadas a empresas abertas, porém elas próprias de capital fechado. Segundo o executivo, como fazem parte de conglomerados maiores, que se preocupam com a transparência, essas SPEs disponibilizam aos investidores a mesma qualidade de informações que uma empresa aberta. “Queremos o desenvolvimento do mercado de capitais, e quanto maior a liberdade de investimento dos institucionais, dentro do que for razoável, melhor”, diz.
Para o diretor executivo responsável pela Comitê de Investimentos da Abrapp, Guilherme Velloso Leão, a inclusão dos títulos emitidos por companhias de capital fechado no rol de possibilidades dos fundos de pensão pode representar uma opção de diversificação. “Sob esse ponto de vista, é um avanço do mercado na criação de uma nova classe de ativo que permitiria a capitalização das empresas e o fomento do mercado de capitais”, diz o especialista que é também economista-chefe da Fiemg e diretor-presidente da Casfam, das indústrias mineiras.
Procurada por esta publicação para comentar a possibilidade de alterar a 3.792 de forma a permitir investimentos em debêntures de empresas de capital fechado a Previc informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que ainda precisa estudar melhor o assunto para poder se pronunciar.

Liquidez – Para o diretor do Comitê de Investimentos da Abrapp, uma das dificuldades de abrigar títulos privados de empresas de capital fechado na carteira dos institucionais é sua baixa liquidez, questão que precisaria ser resolvida antes de as fundações começarem a atuar nesse nicho. “Por não terem liquidez, as entidades teriam de levá-los até o vencimento, ficando presas ao risco de um determinado setor e de uma determinada empresa”. Nesse contexto, prossegue o especialista, as entidades precisariam ter uma capacidade de análise que hoje só se encontra nas fundações de grande porte. “Sempre haverá o risco de uma escolha em que as hipóteses consideradas na decisão do investimento se alterem ao longo do tempo por condições de mercado”. Leão lembra que já existe no mercado um debate sobre a responsabilidade dos institucionais em relação aos ativos que compõem fundos de participações, que também não tem liquidez. “Por mais cuidadosa que as fundações sejam nas análises do investimento, ainda existe um risco enorme, principalmente no Brasil, com tanta instabilidade”.
Segundo Laloni, uma gestão mais ativa dos títulos privados por parte dos investidores pode contribuir com o fomento do mercado secundário e com a geração de mais liquidez. “Temos hoje um mercado de capitais crescente, mas que precisa se desenvolver ainda mais, e a participação dos institucionais transacionando esses títulos durante a vida do ativo ajuda a criar um mercado secundário”. Para Leão, “à medida que os títulos emitidos por companhias de capital fechado ganhem relevância no mercado, e sejam mais pulverizados, o mercado secundário irá se desenvolver”.

Debêntures de infraestrutura – Especificamente em relação às debêntures de infraestrutura, Leão adianta que a Abrapp tem mantido um diálogo com o BNDES no sentido de buscar um modelo mais adequado ao passivo de longo prazo dos fundos de pensão. “Nessas discussões não se fala somente sobre a questão da remuneração, que teria de ser acima dos ativos livres de risco, mas também sobre a forma de construir um mercado secundário que desse liquidez ao negócio”. Segundo ele, uma possibilidade que está sendo debatida é de um eventual pagamento semestral a ser feito pelas debêntures de infraestrutura, na fase de realização efetiva das obras, onde se concentra geralmente o maior risco do processo.
André Salcedo, chefe do departamento de fomento ao mercado de capitais do BNDES, diz que o foco do banco tem sido desenvolver o mercado das debêntures de infraestrutura emitidas por empresas de capital fechado ou SPEs, uma vez que as debêntures de infraestrutura emitidas por empresas de capital aberto tem aceitação mais fácil pelos investidores.
Para ele, uma das possibilidades surgidas das conversas entre Anbima, BNDES e Abrapp seria estruturar um fundo de investimento que comprasse cotas de diversas emissões, abarcadas em um único veículo. Existem também conversas para se estruturar um fundo nesses moldes voltado para o investidor pessoa física, mas o fundo voltado aos institucionais, por não ter a mesma necessidade de liquidez das pessoas físicas, poderia ser compensado com um retorno maior. Ele exemplifica com uma debênture de projeto de energia eólica, precificada 210 basis points acima do prêmio da NTN-B, superando grande parte das metas atuariais.
De acordo com Salcedo, estuda-se também aumentar a transparência do segmento de títulos privados. Hoje as informações e documentos sobre as emissões ficam espalhadas entre o agente fiduciário, o próprio emissor, e em alguns casos até cartórios, o que dificulta o acesso do investidor. A ideia é criar um site, ou utilizar algum já existente, para reunir em um único lugar todas as informações.
Outra medida em análise, surgida em conversas entre o BNDES e a B3, seria levar a negociação dos títulos privados, que hoje ocorre principalmente no mercado de balcão, para as plataformas eletrônicas da Cetip. “Com isso haveria mais transparência dos preços nas negociações”, prevê Salcedo. Ele ressaltou, contudo, que essas conversas ainda estão em fase inicial. A Cetip não quis se pronunciar sobre o tema.
Salcedo considera que a proibição imposta às fundações de investir em debêntures de empresas fechadas dificulta uma evolução do segmento.

Perspectivas – O BNDES calcula que o mercado de debêntures de projetos pode movimentar R$ 4 bilhões nos próximos 18 meses, principalmente em operações de parques eólicos e transmissão e geração de energia. O segmento das debêntures de infraestrutura movimentou R$ 22 bilhões até o final de 2016, sendo R$ 6 bilhões de debêntures de projetos, sendo que R$ 2 bilhões foram subscritos pelo BNDES. “Quanto mais o mercado tem apetite pelas emissões menos o BNDES participa das ofertas”, explica o especialista.


VídeosOnline

Mais lidas de Investidor Institucional em 3 meses

Mais lidas de InvestidorOline em 1 mês